Empatia; A emoção que veio para ficar
Há algumas semanas recebi um pedido por telefone para uma conversa sobre empatia.
Meu interlocutor era um jornalista que desejava fazer uma matéria a respeito. Ao mesmo tempo, explicou que era candidato a uma vaga de repórter em um grande jornal. Ele queria aproveitar para fazer uma ótima impressão na entrevista de seleção.
Combinamos que ele viria no dia seguinte ao meu escritório. Antes, orientei-o para ler a matéria de Veja sobre a maior absorção de mulheres grávidas pelo mercado de trabalho . "Mas o que tem isso a ver com empatia?", perguntou o repórter ansioso.
Naquela hora, eu não teria muita chance de convencê-lo sobre a primeira tacada anti-empática que ele acabara de dar; preferi responder que a matéria iria transformar o conteúdo do nosso encontro.
Ele fez o tema de casa. No dia seguinte, falou de Ana Cristina Dutra com sorriso largo. "Mas que sorte a dela", disse, sublinhando que, encerrado o mestrado no Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, no Rio de Janeiro, ela engravidara. Grávida, conseguira o emprego da Repsol YPF, um grupo espanhol do setor de petróleo. Sim, o empregador o sabia, e quis que a vaga fosse dela.
Contei ao jovem repórter o caso de Maristela, gaúcha pós-graduada em marketing que compareceu à entrevista para a qual fora selecionada, tendo antes detalhado estar grávida de três meses. Perguntada porque queria o emprego, ela disse: "o produto da empresa tem a minha cara. Sei tudo sobre ele e posso fazer muito para alavancá-lo no mercado".
Na semana seguinte, o diretor da empresa lhe comunicou que a vaga não era dela. O consultor de recursos humanos, que prestava assessoria na área de contratações, argumentou que admitir uma pessoa pouco antes da licença-maternidade não era sensato. Além disso, julgou que a moça mostrava excesso de autoconfiança ao espelhar-se no produto da empresa.
"Não é por você estar grávida", disse-lhe o empresário. "E quer um conselho? Nunca diga que o produto da empresa tem a sua cara. Indica excesso de confiança."
O jornalista escutava com atenção enquanto eu explicava que a base da empatia está na confiança em si mesmo. Só somos capazes de identificar que determinado produto ou serviço tem a nossa cara depois de cuidadoso processo que envolve milhões de neurônios cerebrais. Primeiro, eles precisam concluir que a rede interna que processa a auto-imagem estabelece um match preciso com a imagem do produto ou serviço.
Esse pareamento bem-sucedido não vai acontecer mais do que umas poucas dezenas de vezes durante a vida. Por isso, ter algo de uma empresa, estrutura ou instituição "na cara" é uma preciosidade.
Logo depois, ainda grávida, Maristela conseguiu emprego em uma multinacional. Seria coordenadora sênior da área de marketing. Ao dar-lhe a notícia, o chefe de recursos humanos salientou: "Parabéns. Achamos que você tem a cara do nosso produto e vai realizar um excelente trabalho para alavancá-lo no mercado".
Expliquei ao repórter que decisões desse tipo muitas vezes decorrem da empatia presente no encontro. Ao pressentir que o potencial da candidata grávida quintuplicaria depois da licença-maternidade, a empresa apostava nela. Ao perceber que a empresa a aceitava com o filho por nascer, uma janela se abria em seu coração. Essa é a mágica operada pela empatia.
Empatia tem algo de fortemente biológico. Diferente de como alguns pensam, não se pode encená-la. Empatia significa pensar com os pés dentro dos sapatos do outro. Você concorda que é difícil deixar de perceber a candura e a persistência de uma mulher grávida batalhando por seu emprego?
No caso dela, a progesterona conta a seu favor. E nós, mortais comuns, como fazemos para ter empatia?
O segredo é contar com o coração. Há em todos nós uma linguagem que sai diretamente de dentro do peito. Encenar é com o cérebro; falar com empatia é coisa do coração. É algo parecido com cantar como canta o Martinho da Vila: você não o vê, mas vê seu sorriso em cada linha do refrão.
Um dia teremos que responder porque pleiteamos trabalhar nessa empresa ou naquela instituição. Esse é o momento para estabelecer empatia. O entrevistador conhece todas as frases-chavão. Não há como ser criativo.
Só há uma resposta que ele ainda não ouviu. A sua. Aquela que vem direto do coração, cuja honestidade vai nocauteá-lo. Ela é como sua impressão digital: única e intransferível. Você ganha a entrevista na hora.
Exemplifiquei dizendo que a última coisa que eu soube da Maristela é que o gráfico de vendas do produto da empresa havia batido no teto. Claro, é trabalho de equipe, ela mesma enfatizava isso. Todos nós trabalhamos em equipe.
Meu amigo jornalista, que era arguto, ponderou que ao responder do coração, ela não tinha ganhado o emprego na primeira tentativa. Claro, empatia também precisa de um coração do lado de lá. Mas eles são cada vez mais freqüentes hoje em dia. Não é que emoção no trabalho esteja em alta; ela veio para ficar.
Casualmente, perguntei ao Alceu por que ele queria trabalhar "lá". Acho que ele já sabia que eu ia perguntar isso. Sorrindo de mansinho, olhou-me com seus dentes brancos.
"A primeira matéria de verdade que eu li na vida estava naquele jornal. Foi com base nela que eu escrevi minha redação no vestibular. E me saí bem demais". Desde então, completou, "eu sabia que um dia acabaria por lá".
Senti um breve arrepio junto com seu sorriso e o aperto de mão. Acho que ele havia entendido tudo.
E quanto a você, leitor, a sua resposta já está no coração?
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terça-feira, 23 de março de 2010
Empatia
Definimos empatia como habilidade de perceber as reações de outra pessoa. É a habilidade de perceber informações sutis e informações fornecidas por outros, de maneira a identificar com exatidão o que estão sentindo e pensando.
Empatia não necessariamente envolve concordar com os sentimentos das outras pessoas, mas certamente envolve compreender quais são seus sentimentos e idéias.
Empatia não é simpatia. Perde-se a objetividade na simpatia. Se você se identifica e sente as emoções dos outros, não pode mais vê-los de uma maneira desapaixonada e objetiva.
Por exemplo, para vender, um profissional precisa compreender como um cliente potencial está sentindo, ao mesmo tempo que mantém o foco em seus próprios objetivos e metas.
De maneira a compreender como funciona a empatia, é importante perceber que a empatia funcional está relacionada inteiramente à motivação. Ninguém de fato sabe se as pessoas nascem com capacidade empática diferenciada, ou se realmente não são empáticas.
O que sabemos, é que do ponto de vista comportamental, as pessoas variam enormemente em sua habilidade de fazer uso funcional de sua empatia. A questão principal que queremos enfatizar é que se existe ou não uma capacidade empática intrínseca num indivíduo, o fator principal está relacionado com a motivação individual para usar a empatia.
Existem muitas pessoas que optam por agir superficialmente. Lidam com aquilo que é tangível e que está em sua frente e não estão interessadas em explorar o que pode estar por trás de uma afirmação ou de uma ação. Investem muito pouco de sua energia pensando acerca das motivações ou necessidades dos outros. Podem colocar-se disponíveis quando alguém precisa de ajuda, especialmente ajuda física.
Se alguém cai e se machuca, respondem a esse fato, mas é muito pouco provável que identifiquem a dor psíquica que o outro possa estar experimentando. Colocando de outra forma, essas pessoas não pensam em "ler" os outros e não tem a motivação para isso.
Existem também as pessoas que podem ser extraordinariamente inteligentes e que até possuem alguma motivação para compreender os outros. Entretanto, são tão rígidas que usam sua inteligência para defender seus próprios conceitos e valores.
Do outro lado da moeda, estão aqueles indivíduos que são, de fato, motivados para "ler" e compreender os outros. Vão além da superfície e estão constantemente examinando situações e pessoas.
É possível comparar esses 3 grupos com possuir um amplificador de alta fidelidade. O primeiro grupo de pessoas nem se incomoda em comprar um.
O segundo grupo pode possuir um bom amplificador, porém não o coloca para funcionar.
O terceiro grupo liga o amplificador e procura garantir que funciona em toda a sua capacidade.
Em vendas, empatia é de importância crucial para o sucesso. Vendedores precisam ser suficientemente empáticos para ajustar suas apresentações e suas abordagens. Empatia é necessária para identificar as necessidades reais de um cliente potencial e então procurar garantir que essas necessidades são atendidas através do produto ou do serviço que está sendo vendido.
Em liderança, empatia é essencial do ponto de vista de ser sensível às necessidades e habilidades da equipe. Liderar é ter habilidade para garantir que o trabalho é feito, maximizando os talentos e o potencial de cada um. É dirigir-se à cada pessoa de forma personalizada.
Empatia é um componente vital da comunicação e faz com que seja possível receber mensagens e compreendê-las corretamente. A habilidade de escutar atenta e objetivamente outras pessoas e modificar abordagens em função daquilo que é identificado, define, em grande medida, a presença ou não da empatia.
Quando a empatia não está presente, a conversa é, na realidade, vários monólogos alternados; o vendedor fala com o cliente, o gerente fala com subordinados, mas nenhuma comunicação real acontece!!!!
Definimos empatia como habilidade de perceber as reações de outra pessoa. É a habilidade de perceber informações sutis e informações fornecidas por outros, de maneira a identificar com exatidão o que estão sentindo e pensando.
Empatia não necessariamente envolve concordar com os sentimentos das outras pessoas, mas certamente envolve compreender quais são seus sentimentos e idéias.
Empatia não é simpatia. Perde-se a objetividade na simpatia. Se você se identifica e sente as emoções dos outros, não pode mais vê-los de uma maneira desapaixonada e objetiva.
Por exemplo, para vender, um profissional precisa compreender como um cliente potencial está sentindo, ao mesmo tempo que mantém o foco em seus próprios objetivos e metas.
De maneira a compreender como funciona a empatia, é importante perceber que a empatia funcional está relacionada inteiramente à motivação. Ninguém de fato sabe se as pessoas nascem com capacidade empática diferenciada, ou se realmente não são empáticas.
O que sabemos, é que do ponto de vista comportamental, as pessoas variam enormemente em sua habilidade de fazer uso funcional de sua empatia. A questão principal que queremos enfatizar é que se existe ou não uma capacidade empática intrínseca num indivíduo, o fator principal está relacionado com a motivação individual para usar a empatia.
Existem muitas pessoas que optam por agir superficialmente. Lidam com aquilo que é tangível e que está em sua frente e não estão interessadas em explorar o que pode estar por trás de uma afirmação ou de uma ação. Investem muito pouco de sua energia pensando acerca das motivações ou necessidades dos outros. Podem colocar-se disponíveis quando alguém precisa de ajuda, especialmente ajuda física.
Se alguém cai e se machuca, respondem a esse fato, mas é muito pouco provável que identifiquem a dor psíquica que o outro possa estar experimentando. Colocando de outra forma, essas pessoas não pensam em "ler" os outros e não tem a motivação para isso.
Existem também as pessoas que podem ser extraordinariamente inteligentes e que até possuem alguma motivação para compreender os outros. Entretanto, são tão rígidas que usam sua inteligência para defender seus próprios conceitos e valores.
Do outro lado da moeda, estão aqueles indivíduos que são, de fato, motivados para "ler" e compreender os outros. Vão além da superfície e estão constantemente examinando situações e pessoas.
É possível comparar esses 3 grupos com possuir um amplificador de alta fidelidade. O primeiro grupo de pessoas nem se incomoda em comprar um.
O segundo grupo pode possuir um bom amplificador, porém não o coloca para funcionar.
O terceiro grupo liga o amplificador e procura garantir que funciona em toda a sua capacidade.
Em vendas, empatia é de importância crucial para o sucesso. Vendedores precisam ser suficientemente empáticos para ajustar suas apresentações e suas abordagens. Empatia é necessária para identificar as necessidades reais de um cliente potencial e então procurar garantir que essas necessidades são atendidas através do produto ou do serviço que está sendo vendido.
Em liderança, empatia é essencial do ponto de vista de ser sensível às necessidades e habilidades da equipe. Liderar é ter habilidade para garantir que o trabalho é feito, maximizando os talentos e o potencial de cada um. É dirigir-se à cada pessoa de forma personalizada.
Empatia é um componente vital da comunicação e faz com que seja possível receber mensagens e compreendê-las corretamente. A habilidade de escutar atenta e objetivamente outras pessoas e modificar abordagens em função daquilo que é identificado, define, em grande medida, a presença ou não da empatia.
Quando a empatia não está presente, a conversa é, na realidade, vários monólogos alternados; o vendedor fala com o cliente, o gerente fala com subordinados, mas nenhuma comunicação real acontece!!!!
Empatia: uma atitude naturalmente sábia e compassiva
O desenvolvimento da espiritualidade nos lança em direção ao mundo: nos torna cada vez mais empáticos com os outros. Para que isto se torne realidade, precisamos inicialmente incluir em nossas atividades cotidianas uma atitude empática para conosco mesmos.
Ser empático é algo natural no ser humano: quando vemos alguém sofrendo surge espontaneamente em nós o desejo de ajudar, simplesmente porque nesses momentos reconhecemos no outro alguém como nós e nos identificamos com ele.
A palavra empatia origina-se do termo grego empátheia, que significa entrar no sentimento. Portanto, a primeira condição para sermos empáticos é sermos receptivos aos outros e simultaneamente à nossa totalidade interior.
Isto significa estar disposto a conhecer tanto os outros como a si mesmo. A empatia nos ajuda a nos libertar dos nossos padrões rígidos e repetitivos.
Segundo Robert Sardello, precisamos passar por três fases distintas para desenvolver a empatia. O primeiro aspecto dessa atividade consiste em voltarmos conscientemente a nossa atenção para uma outra pessoa em uma atitude de abertura.
Estendemos parte de nosso ser para além de seus limites usuais, ficamos interessados na existência e no destino da outra pessoa – mas não por curiosidade, aventura, criticismo, interesse pessoal ou poder. Para tanto, temos antes que deixar escoar os nossos pensamentos habituais sobre ela e nos permitir senti-la de um modo mais direto e intuitivo.
Uma vez que abandonamos nossas idéias preconcebidas sobre aquela pessoa e nos encontramos sintonizados com ela, podemos passar para a próxima etapa: Você se move em direção a sentir as qualidades interiores da outra pessoa sem saber ou precisar saber quais são elas, exatamente como uma criança que, antes de formar conceitos sobre o mundo, está aberta às suas impressões imediatas e qualidades interiores.
Neste processo, entretanto, nem por um instante perdemos o senso de nós mesmos. O exercício não é uma fusão com a outra pessoa.
A idéia é derrubar as barreiras que nos impedem de fazer um contato mais direto e espontâneo com o outro sem nos confundirmos com ele; portanto, a terceira fase consiste em retornar à parte de nós mesmos deixada para trás enquanto encontrávamos a outra pessoa.
Um eco daquilo que experimentamos enquanto residíamos no interior da outra pessoa permanece, e agora essa ressonância vive em nós como uma imagem da alma. Tal imagem pode gradualmente ser trazida ao entendimento através da contemplação.
Este exercício nos aproxima dos outros, e nos ajuda a reconhecer as diferenças e os pontos que nos unem. Empatia não quer dizer tornar-se similar ao outro. Muito pelo contrário: ela surge à medida em que nos tornamos receptivos às diferenças. Compreender o outro em sua particularidade é fundamental.
Formar parcerias torna-nos cada vez mais empáticos, pois estreitar nossos relacionamentos ajuda-nos a nos desapegarmos da visão autocentrada que gera ansiedade e solidão.
É como escreve Márcia Mattos: O fato de o outro existir junto comigo – de estar ao meu lado e de se dispor a fazer coisas comigo – me inspira a despertar qualidades que estavam inconscientes em mim.
Toda personalidade se enriquece com isso. [...] Há uma poderosa química que o outro exerce sobre nós, produzindo efeitos e aflorando virtudes das quais nós sozinhos seríamos incapazes de nos apropriar.
O delicado equilíbrio entre as minhas, as suas e as nossas necessidades
Em geral, temos o hábito de olhar apenas para nossas necessidades, mesmo quando pensamos ser generosos. Esta é a razão por que é tão difícil ajudar os outros: temos dificuldade de percebê-los nas suas necessidades. Desta maneira, acabamos por criar vínculos desequilibrados e neuróticos, baseados na co-dependência.
Co-dependente é uma pessoa que tem deixado o comportamento de outra pessoa afetá-la, e é obcecada em controlar o comportamento dessa outra pessoa. Quando dizemos sim, mas na realidade queremos dizer não, quando fazemos coisas que não queremos realmente fazer, ou fazemos o que cabia aos outros fazerem, estamos sendo co-dependentes e não pacientes e nem mesmo generosos!
Uma atitude co-dependente pode parecer positiva, mas, na realidade, está gerando baixa auto-estima e falta de confiança.
Em outras palavras, se ao nos dedicarmos aos outros estivermos nos abandonando, mais à frente teremos de nos confrontar com as conseqüências de nossa atitude ignorante.
Reconhecer nossos limites e necessidades é tão saudável quanto a motivação de querer superá-los.
Sentir a dor do outro não quer dizer ter que repará-la. Este é nosso grande desafio: sentir a dor com o intuito de simplesmente nos aproximarmos dela, em vez de querer transformá-la de modo imediato.
É preciso deixar claro que ter empatia não tem nada a ver com a necessidade compulsiva de realizar os desejos alheios, própria dos relacionamentos co-dependentes.
Stephen Levine nos dá uma boa dica para identificarmos se nossos relacionamentos são saudáveis ou não: Na co-dependência, as balanças sempre pendem para um lado. É freqüente que um tenha de estar ‘por baixo’ para que o outro se sinta ‘por cima’.
Não há equilíbrio, somente a temida gravidade. Em um relacionamento equilibrado não há um ‘outro dominante’; os papéis estão em constante mudança. Quem tiver o apoio mais estável sustentará a escalada naquele dia.
A troca equilibrada entre ceder e requisitar, dar e receber afeto e atenção nos aproxima de modo saudável das pessoas que nos cercam sem corrermos o risco de criar vínculos destrutivos. O paradoxo do relacionamento é que ele nos obriga a sermos nós mesmos, expressando sem hesitação e assumindo uma posição.
Ao mesmo tempo, exige que abandonemos todas as posições fixas, bem como nosso apego a elas. O desapego em um relacionamento não significa que não tenhamos necessidades ou que não prestemos atenção a elas.
Se ignoramos ou negamos nossas necessidades, cortamos uma parte importante de nós mesmos e teremos menos a oferecer ao parceiro. O desapego em seu melhor sentido significa não se identificar com as carências nem com as preferências e aversões.
Reconhecemos sua existência, mas permanecemos em contato com nosso eu maior, onde as necessidades não nos dominam. A partir desta perspectiva, podemos escolher afirmar nosso desejo ou abandoná-lo, de acordo com as necessidades do momento.
A empatia começa com a capacidade de estarmos bem conosco mesmos, de reconhecermos o que não gostamos em nós e admirarmos nossas qualidades. Quanto melhor tivermos sido compreendidos em nossas necessidades e sentimentos quando éramos crianças, melhor saberemos reconhecê-las quando adultos.
Entrar em contato com os próprios sentimentos é a base para desenvolver a empatia.
Como alguém que desconhece suas próprias necessidades poderá entender as necessidades alheias?
O desenvolvimento da espiritualidade nos lança em direção ao mundo: nos torna cada vez mais empáticos com os outros. Para que isto se torne realidade, precisamos inicialmente incluir em nossas atividades cotidianas uma atitude empática para conosco mesmos.
Ser empático é algo natural no ser humano: quando vemos alguém sofrendo surge espontaneamente em nós o desejo de ajudar, simplesmente porque nesses momentos reconhecemos no outro alguém como nós e nos identificamos com ele.
A palavra empatia origina-se do termo grego empátheia, que significa entrar no sentimento. Portanto, a primeira condição para sermos empáticos é sermos receptivos aos outros e simultaneamente à nossa totalidade interior.
Isto significa estar disposto a conhecer tanto os outros como a si mesmo. A empatia nos ajuda a nos libertar dos nossos padrões rígidos e repetitivos.
Segundo Robert Sardello, precisamos passar por três fases distintas para desenvolver a empatia. O primeiro aspecto dessa atividade consiste em voltarmos conscientemente a nossa atenção para uma outra pessoa em uma atitude de abertura.
Estendemos parte de nosso ser para além de seus limites usuais, ficamos interessados na existência e no destino da outra pessoa – mas não por curiosidade, aventura, criticismo, interesse pessoal ou poder. Para tanto, temos antes que deixar escoar os nossos pensamentos habituais sobre ela e nos permitir senti-la de um modo mais direto e intuitivo.
Uma vez que abandonamos nossas idéias preconcebidas sobre aquela pessoa e nos encontramos sintonizados com ela, podemos passar para a próxima etapa: Você se move em direção a sentir as qualidades interiores da outra pessoa sem saber ou precisar saber quais são elas, exatamente como uma criança que, antes de formar conceitos sobre o mundo, está aberta às suas impressões imediatas e qualidades interiores.
Neste processo, entretanto, nem por um instante perdemos o senso de nós mesmos. O exercício não é uma fusão com a outra pessoa.
A idéia é derrubar as barreiras que nos impedem de fazer um contato mais direto e espontâneo com o outro sem nos confundirmos com ele; portanto, a terceira fase consiste em retornar à parte de nós mesmos deixada para trás enquanto encontrávamos a outra pessoa.
Um eco daquilo que experimentamos enquanto residíamos no interior da outra pessoa permanece, e agora essa ressonância vive em nós como uma imagem da alma. Tal imagem pode gradualmente ser trazida ao entendimento através da contemplação.
Este exercício nos aproxima dos outros, e nos ajuda a reconhecer as diferenças e os pontos que nos unem. Empatia não quer dizer tornar-se similar ao outro. Muito pelo contrário: ela surge à medida em que nos tornamos receptivos às diferenças. Compreender o outro em sua particularidade é fundamental.
Formar parcerias torna-nos cada vez mais empáticos, pois estreitar nossos relacionamentos ajuda-nos a nos desapegarmos da visão autocentrada que gera ansiedade e solidão.
É como escreve Márcia Mattos: O fato de o outro existir junto comigo – de estar ao meu lado e de se dispor a fazer coisas comigo – me inspira a despertar qualidades que estavam inconscientes em mim.
Toda personalidade se enriquece com isso. [...] Há uma poderosa química que o outro exerce sobre nós, produzindo efeitos e aflorando virtudes das quais nós sozinhos seríamos incapazes de nos apropriar.
O delicado equilíbrio entre as minhas, as suas e as nossas necessidades
Em geral, temos o hábito de olhar apenas para nossas necessidades, mesmo quando pensamos ser generosos. Esta é a razão por que é tão difícil ajudar os outros: temos dificuldade de percebê-los nas suas necessidades. Desta maneira, acabamos por criar vínculos desequilibrados e neuróticos, baseados na co-dependência.
Co-dependente é uma pessoa que tem deixado o comportamento de outra pessoa afetá-la, e é obcecada em controlar o comportamento dessa outra pessoa. Quando dizemos sim, mas na realidade queremos dizer não, quando fazemos coisas que não queremos realmente fazer, ou fazemos o que cabia aos outros fazerem, estamos sendo co-dependentes e não pacientes e nem mesmo generosos!
Uma atitude co-dependente pode parecer positiva, mas, na realidade, está gerando baixa auto-estima e falta de confiança.
Em outras palavras, se ao nos dedicarmos aos outros estivermos nos abandonando, mais à frente teremos de nos confrontar com as conseqüências de nossa atitude ignorante.
Reconhecer nossos limites e necessidades é tão saudável quanto a motivação de querer superá-los.
Sentir a dor do outro não quer dizer ter que repará-la. Este é nosso grande desafio: sentir a dor com o intuito de simplesmente nos aproximarmos dela, em vez de querer transformá-la de modo imediato.
É preciso deixar claro que ter empatia não tem nada a ver com a necessidade compulsiva de realizar os desejos alheios, própria dos relacionamentos co-dependentes.
Stephen Levine nos dá uma boa dica para identificarmos se nossos relacionamentos são saudáveis ou não: Na co-dependência, as balanças sempre pendem para um lado. É freqüente que um tenha de estar ‘por baixo’ para que o outro se sinta ‘por cima’.
Não há equilíbrio, somente a temida gravidade. Em um relacionamento equilibrado não há um ‘outro dominante’; os papéis estão em constante mudança. Quem tiver o apoio mais estável sustentará a escalada naquele dia.
A troca equilibrada entre ceder e requisitar, dar e receber afeto e atenção nos aproxima de modo saudável das pessoas que nos cercam sem corrermos o risco de criar vínculos destrutivos. O paradoxo do relacionamento é que ele nos obriga a sermos nós mesmos, expressando sem hesitação e assumindo uma posição.
Ao mesmo tempo, exige que abandonemos todas as posições fixas, bem como nosso apego a elas. O desapego em um relacionamento não significa que não tenhamos necessidades ou que não prestemos atenção a elas.
Se ignoramos ou negamos nossas necessidades, cortamos uma parte importante de nós mesmos e teremos menos a oferecer ao parceiro. O desapego em seu melhor sentido significa não se identificar com as carências nem com as preferências e aversões.
Reconhecemos sua existência, mas permanecemos em contato com nosso eu maior, onde as necessidades não nos dominam. A partir desta perspectiva, podemos escolher afirmar nosso desejo ou abandoná-lo, de acordo com as necessidades do momento.
A empatia começa com a capacidade de estarmos bem conosco mesmos, de reconhecermos o que não gostamos em nós e admirarmos nossas qualidades. Quanto melhor tivermos sido compreendidos em nossas necessidades e sentimentos quando éramos crianças, melhor saberemos reconhecê-las quando adultos.
Entrar em contato com os próprios sentimentos é a base para desenvolver a empatia.
Como alguém que desconhece suas próprias necessidades poderá entender as necessidades alheias?
emaptia nos relacionamentos
A EMPATIA COMO FACILITADORA DOS RELACIONAMENTOS AMOROSOS
E AS INFLUÊNCIAS DA MODERNIDADE
A instabilidade e a volatilidade das relações íntimas somadas às inúmeras transformações observadas nas práticas amorosas refletem a dificuldade de se manter um relacionamento em nossos dias, o que repercute numa ausência de comportamento empático para com o parceiro(a).
Desse modo, o objetivo deste artigo é destacar a importância da empatia como uma habilidade essencial na sustentação de relacionamentos amorosos e discutir as influências da modernidade que repercutiram nos conflitos dessas relações.
A empatia trata-se da capacidade humana de inferir e compartilhar os pensamentos e
os sentimentos das outras pessoas, e vem sendo apontada como uma habilidade essencial
para a qualidade das relações interpessoais, .
É preditiva de ajustamento marital e afeta a satisfação na relação conjugal, através de suas influências sobre comportamentos específicos de mediação .
Com isso, as pessoas que manifestam um comportamento empático são capazes de tornar suas relações mais prazerosas, reduzindo situações de conflito e de rompimento.
A empatia é definida como uma habilidade de comunicação, composta pelos
componentes cognitivo (compreensão dos sentimentos e perspectivas da outra pessoa),
afetivo (sentimentos de compaixão e simpatia pela outra pessoa) e comportamental
(transmissão do entendimento dos sentimentos e perspectivas da outra pessoa).
Vale chamar a atenção para o papel da compreensão empática, que envolve o
‘prestar atenção’ e o ‘ouvir sensivelmente’, e para o papel da comunicação empática, que envolve o ‘verbalizar sensivelmente’.
Quando bem ajustadas, essas funções promovem o desenvolvimento saudável das relações interpessoais, visto que a habilidade em ‘ler’ e valorizar os pensamentos e sentimentos das outras pessoas é o que, provavelmente torna esses indivíduos mais bem sucedidos em suas relações íntimas.
Dentro dessa concepção, é possível creditar à empatia um papel fundamental na
dinâmica das relações entre casais, atuando como um instrumento facilitador da
comunicação e do entendimento dos sentimentos, emoções e pontos de vista do outro.
Para entender melhor o funcionamento dos relacionamentos amorosos, faz-se
necessário compreender (ou pelo menos assumir) o sentido do amor, sentimento pelo qual,as pessoas buscam estar juntas e que constitui a maior razão de união em matrimônio.
Para tanto, podemos buscar as origens das concepções sobre o amor nos mitos, donde encontramos na mitologia greco-romana uma das primeiras formulações do significado do amor através das diferentes descrições do mito de Eros, o deus do amor (Braz, 2005).
Nas diferentes versões que Eros assumiu na mitologia, podemos observar a união
como uma característica constante, como nos aponta uma destas versões: Eros é visto como força de ligação e coesão do universo, trazendo em si o desejo de tudo ligar e unir .
Todavia, o mesmo Eros que tudo une, começa a ser visto sob dois ângulos distintos:
Na mesma versão de Eurípedes, Eros tem duplo caráter, num momento era força perniciosaque provocava a ruína dos homens e, em outro, o poder que levava a virtude e a salvaçãoaos homens.
Assim, fazendo uma analogia com os mitos, também podemos ver nas relações amorosas esse jogo de contraste, em que muitas vezes de um sentimentosaudável e construtivo, o amor passa a destrutivo, ao passo que patológico.
Não existe um consenso acerca da definição do amor romântico.
Dentro da Psicologia Social coexistem várias abordagens sobre as diferentes maneiras de amar, dentre as quais encontra-se a versão de Zick Rubin, pioneiro no estudo do tema, segundo a qual o amor é composto dos seguintes fatores: ‘afeição, preocupação e intimidade’.
Segundo Rubin, há alguns elementos que são comuns a todos os relacionamentos
amorosos, tais como, a ‘compreensão mútua, dar e receber apoio, gostar da companhia da pessoa amada’; bem como elementos distintivos, como no caso do amor romântico, em que muitas vezes o casal é capaz de se comunicar através da simples troca de olhares .
Hatfield (1988) define o amor romântico como “um estado de intenso anseio pela
união com outra pessoa”. Sendo assim, podemos ver mais uma vez o amor como elo que
estabelece os relacionamentos entre pares.
Contudo, sendo o amor um sentimento tão intenso e prazeroso, por que então observa-se tanta dificuldade na sustentação de relaçõesestáveis e duradouras?
O auge de um relacionamento, com todo seu estado de exaltação, não dura para
sempre. O que garantirá a durabilidade de uma relação é o que Hatifield chama de ‘amor de companheirismo’, no qual a ligação entre o casal é mais profunda e afetuosa.
Contudo, odeclínio do amor romântico é inevitável, e assim do fogo ardente da paixão, o amor passa ao calor ameno do afeto.
O mito de Eros e Psique nos traz uma bela visão do amor como algo poderoso e
superador, capaz de enfrentar tudo, e em meio às dificuldades conseguir amadurecer.
Mas,se até mesmo na construção poética dos mitos, o amor admite seu caráter de dificuldade,quiçá nos relacionamentos entre os casais, nos quais a prática cotidiana implica diversosproblemas de uma vida a dois.
Com toda a pressão do dia-a-dia, os conflitos tornam-se inevitáveis. Contudo, saber
ouvir provoca efeitos positivos na interação com o outro; a escuta sensível é capaz até mesmo de diminuir a raiva diante de uma situação difícil e possibilitar o entendimento dasrazões e dos sentimentos daquele que manifesta raiva, tornando possível o rompimento dasituação de conflito .
Desse modo, uma das características fundamentais de um bom relacionamento é a
qualidade da comunicação, e isto inclui tanto a linguagem verbal, como a não-verbal.
Entretanto, como bem sabemos, na prática não é tão fácil conseguir falar de tudo
explicitamente, ficando muito da nossa mensagem subentendida nas entrelinhas do
discurso.
Nesse sentindo, Goleman aponta que raramente as emoções das pessoas são postas em palavras, sendo expressas através de indícios, como pequenos gestos, que irão depender da capacidade de interpretação de canais não-verbais para que haja
compreensão dos sentimentos do outro.
Dentro desse contexto entra a questão da intimidade. A intimidade é uma conquista,
ou melhor, uma construção gradativa que se obtém através do tempo, e é claro, do nível deproximidade do casal. Deste modo, é preciso sim, dispor de tempo em quantidade equalidade no cuidado e atenção com o outro.
Experimentos em Psicologia Social demonstraram que o afeto direcionado à pessoa
amada faz com que ela retribua da mesma maneira, Com isso, demonstrar que se gosta de alguém é um passo para despertar o interesse no outro.
Quando pessoas sentem que atraem alguém, elas tendem a se sentir atraídas também, e passam a retribuir o afeto.
Nisso, pode-se dizer que entrar numa relação com alguém requer envolvimento,
cuidado, atenção e respeito aos sentimentos da outra pessoa. Assim, a empatia está para orelacionamento como o veículo que possibilita que aquilo que é despertado em nós atravésdo amor seja bem dirigido ao outro, de maneira que, numa situação recíproca, um casal seencontre verdadeiramente em ‘relacionamento’.
Nos dias de hoje, podemos facilmente conferir a fragilidade dos relacionamentos
modernos, nos quais se busca justamente evitar os problemas e as dificuldades. Bauman
bem nos aponta, a fluidez dos relacionamentos através da noção de amor líquido, doqual a incerteza e a insegurança são fatores constituintes.
Numa situação ambivalente, as pessoas buscam relações íntimas e ao mesmo tempo
se desvencilham dos laços que tais relações podem trazer.
Com isso, fazem uso de‘estratégias’ para construir e pautar seus relacionamentos:
São manuais de conquista, sitesde relacionamentos, namoros virtuais, enfim, inúmeros artifícios utilizados para a escolhado parceiro ideal, que deve ser desprovido de defeitos e que não tenha outra coisa aoferecer, a não ser perfeição.
E se o ‘produto’ adquirido não corresponde às expectativas,basta lançar uma nova busca no mercado por um modelo melhor.
Assim, nenhuma escolhaé dotada de rigor e pode a qualquer momento ser substituída por outra dentro de um mundo de opções, sem que haja maiores danos, numa relação de consumo pautada pelo custo e benefício.
Além da transformação que a modernidade acarretou nos relacionamentos íntimos,
outros fatores são levados em discussão para explicar os conflitos e as taxas de
rompimentos dos relacionamentos contemporâneos.
Um desses fatores é a consideração que homens e mulheres desenvolvem maneiras diferentes de expressar seus sentimentos em atitude ao outro. Goleman faz menção a isso, ao falar da diferença da educação entre meninos e meninas, nos quais uma cultura patriarcal leva os pais a ensinarem maneiras distintas aos filhos de como lidar com suas emoções.
Será que conseguiríamos imaginar umpai dizendo ao seu filho para ser sensível e delicado, e demonstrar seus sentimentos?
Um estudo realizado com matérias de revistas masculinas e femininas procurou
identificar a influência da mídia sobre esses dois públicos.
Os autores concluíram que o foco diferencial dessas revistas para cada gênero só faz reforçarvelhos preconceitos e estereótipos em respeito a atitudes de homens e mulheres numarelação, bem como produzir a idéia de que existe um roteiro de sucesso para tais relacionamentos.
Ademais, podemos conferir que a transformação da modernidade instaurou
profundas mudanças na visão dos relacionamentos amorosos.
A facilidade do rompimento conjugal, a liberdade sexual, a mudança de papéis na sociedade tanto de homens e mulheres e toda uma influência e potência dos avanços tecnológicos (televisão, Internet etc.)tiveram repercussão nesse processo.
Romperam-se numerosas barreiras de tempo e espaço; criaram-se idéias de felicidade e praticidade. Contudo, se esqueceu em meio a toda essa inovação,que as pessoas vivem em um mundo real, e este inclui uma gama de dificuldades e requer habilidades, esforços e disposição para lidar com ele.
Assim, de um lado temos a rapidez de um mundo volátil, inconstante e dinâmico; de
outro o processo longo e trabalhoso da construção de um relacionamento. Diferentes ladosde uma mesma realidade que se aproximam quanto à incerteza que ambos transmitem.
O amor, que aqui foi admitido como a força capaz de unir as pessoas, tem de competir com a rotatividade do mundo contemporâneo.
E nisso, muitas das habilidades essenciais, dentre as quais destaca-se a empatia, ou deixam de ser devidamente estimuladas ou são alocadas em segundo plano, já que ouvir, compreender e procurar entender os sentimentos da pessoa amada são tarefas árduas que requerem disposição, entrega e envolvimento.
A possibilidade de trocar de parceiro a qualquer momento, não foi capaz de diluir a
insegurança da aposta em um relacionamento estável; o incerto passou a ser endereçado à instabilidade dos relacionamentos modernos.
A solução deste impasse talvez se encontre na simplicidade de um olho no olho, na sinceridade de uma palavra amável, no calor real dasrelações humanas.
Algo de antiquado? Talvez sim, mas usando as palavras de Carlos Drummond de Andrade:
“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da
vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que
nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidadedos laços humanos.
E AS INFLUÊNCIAS DA MODERNIDADE
A instabilidade e a volatilidade das relações íntimas somadas às inúmeras transformações observadas nas práticas amorosas refletem a dificuldade de se manter um relacionamento em nossos dias, o que repercute numa ausência de comportamento empático para com o parceiro(a).
Desse modo, o objetivo deste artigo é destacar a importância da empatia como uma habilidade essencial na sustentação de relacionamentos amorosos e discutir as influências da modernidade que repercutiram nos conflitos dessas relações.
A empatia trata-se da capacidade humana de inferir e compartilhar os pensamentos e
os sentimentos das outras pessoas, e vem sendo apontada como uma habilidade essencial
para a qualidade das relações interpessoais, .
É preditiva de ajustamento marital e afeta a satisfação na relação conjugal, através de suas influências sobre comportamentos específicos de mediação .
Com isso, as pessoas que manifestam um comportamento empático são capazes de tornar suas relações mais prazerosas, reduzindo situações de conflito e de rompimento.
A empatia é definida como uma habilidade de comunicação, composta pelos
componentes cognitivo (compreensão dos sentimentos e perspectivas da outra pessoa),
afetivo (sentimentos de compaixão e simpatia pela outra pessoa) e comportamental
(transmissão do entendimento dos sentimentos e perspectivas da outra pessoa).
Vale chamar a atenção para o papel da compreensão empática, que envolve o
‘prestar atenção’ e o ‘ouvir sensivelmente’, e para o papel da comunicação empática, que envolve o ‘verbalizar sensivelmente’.
Quando bem ajustadas, essas funções promovem o desenvolvimento saudável das relações interpessoais, visto que a habilidade em ‘ler’ e valorizar os pensamentos e sentimentos das outras pessoas é o que, provavelmente torna esses indivíduos mais bem sucedidos em suas relações íntimas.
Dentro dessa concepção, é possível creditar à empatia um papel fundamental na
dinâmica das relações entre casais, atuando como um instrumento facilitador da
comunicação e do entendimento dos sentimentos, emoções e pontos de vista do outro.
Para entender melhor o funcionamento dos relacionamentos amorosos, faz-se
necessário compreender (ou pelo menos assumir) o sentido do amor, sentimento pelo qual,as pessoas buscam estar juntas e que constitui a maior razão de união em matrimônio.
Para tanto, podemos buscar as origens das concepções sobre o amor nos mitos, donde encontramos na mitologia greco-romana uma das primeiras formulações do significado do amor através das diferentes descrições do mito de Eros, o deus do amor (Braz, 2005).
Nas diferentes versões que Eros assumiu na mitologia, podemos observar a união
como uma característica constante, como nos aponta uma destas versões: Eros é visto como força de ligação e coesão do universo, trazendo em si o desejo de tudo ligar e unir .
Todavia, o mesmo Eros que tudo une, começa a ser visto sob dois ângulos distintos:
Na mesma versão de Eurípedes, Eros tem duplo caráter, num momento era força perniciosaque provocava a ruína dos homens e, em outro, o poder que levava a virtude e a salvaçãoaos homens.
Assim, fazendo uma analogia com os mitos, também podemos ver nas relações amorosas esse jogo de contraste, em que muitas vezes de um sentimentosaudável e construtivo, o amor passa a destrutivo, ao passo que patológico.
Não existe um consenso acerca da definição do amor romântico.
Dentro da Psicologia Social coexistem várias abordagens sobre as diferentes maneiras de amar, dentre as quais encontra-se a versão de Zick Rubin, pioneiro no estudo do tema, segundo a qual o amor é composto dos seguintes fatores: ‘afeição, preocupação e intimidade’.
Segundo Rubin, há alguns elementos que são comuns a todos os relacionamentos
amorosos, tais como, a ‘compreensão mútua, dar e receber apoio, gostar da companhia da pessoa amada’; bem como elementos distintivos, como no caso do amor romântico, em que muitas vezes o casal é capaz de se comunicar através da simples troca de olhares .
Hatfield (1988) define o amor romântico como “um estado de intenso anseio pela
união com outra pessoa”. Sendo assim, podemos ver mais uma vez o amor como elo que
estabelece os relacionamentos entre pares.
Contudo, sendo o amor um sentimento tão intenso e prazeroso, por que então observa-se tanta dificuldade na sustentação de relaçõesestáveis e duradouras?
O auge de um relacionamento, com todo seu estado de exaltação, não dura para
sempre. O que garantirá a durabilidade de uma relação é o que Hatifield chama de ‘amor de companheirismo’, no qual a ligação entre o casal é mais profunda e afetuosa.
Contudo, odeclínio do amor romântico é inevitável, e assim do fogo ardente da paixão, o amor passa ao calor ameno do afeto.
O mito de Eros e Psique nos traz uma bela visão do amor como algo poderoso e
superador, capaz de enfrentar tudo, e em meio às dificuldades conseguir amadurecer.
Mas,se até mesmo na construção poética dos mitos, o amor admite seu caráter de dificuldade,quiçá nos relacionamentos entre os casais, nos quais a prática cotidiana implica diversosproblemas de uma vida a dois.
Com toda a pressão do dia-a-dia, os conflitos tornam-se inevitáveis. Contudo, saber
ouvir provoca efeitos positivos na interação com o outro; a escuta sensível é capaz até mesmo de diminuir a raiva diante de uma situação difícil e possibilitar o entendimento dasrazões e dos sentimentos daquele que manifesta raiva, tornando possível o rompimento dasituação de conflito .
Desse modo, uma das características fundamentais de um bom relacionamento é a
qualidade da comunicação, e isto inclui tanto a linguagem verbal, como a não-verbal.
Entretanto, como bem sabemos, na prática não é tão fácil conseguir falar de tudo
explicitamente, ficando muito da nossa mensagem subentendida nas entrelinhas do
discurso.
Nesse sentindo, Goleman aponta que raramente as emoções das pessoas são postas em palavras, sendo expressas através de indícios, como pequenos gestos, que irão depender da capacidade de interpretação de canais não-verbais para que haja
compreensão dos sentimentos do outro.
Dentro desse contexto entra a questão da intimidade. A intimidade é uma conquista,
ou melhor, uma construção gradativa que se obtém através do tempo, e é claro, do nível deproximidade do casal. Deste modo, é preciso sim, dispor de tempo em quantidade equalidade no cuidado e atenção com o outro.
Experimentos em Psicologia Social demonstraram que o afeto direcionado à pessoa
amada faz com que ela retribua da mesma maneira, Com isso, demonstrar que se gosta de alguém é um passo para despertar o interesse no outro.
Quando pessoas sentem que atraem alguém, elas tendem a se sentir atraídas também, e passam a retribuir o afeto.
Nisso, pode-se dizer que entrar numa relação com alguém requer envolvimento,
cuidado, atenção e respeito aos sentimentos da outra pessoa. Assim, a empatia está para orelacionamento como o veículo que possibilita que aquilo que é despertado em nós atravésdo amor seja bem dirigido ao outro, de maneira que, numa situação recíproca, um casal seencontre verdadeiramente em ‘relacionamento’.
Nos dias de hoje, podemos facilmente conferir a fragilidade dos relacionamentos
modernos, nos quais se busca justamente evitar os problemas e as dificuldades. Bauman
bem nos aponta, a fluidez dos relacionamentos através da noção de amor líquido, doqual a incerteza e a insegurança são fatores constituintes.
Numa situação ambivalente, as pessoas buscam relações íntimas e ao mesmo tempo
se desvencilham dos laços que tais relações podem trazer.
Com isso, fazem uso de‘estratégias’ para construir e pautar seus relacionamentos:
São manuais de conquista, sitesde relacionamentos, namoros virtuais, enfim, inúmeros artifícios utilizados para a escolhado parceiro ideal, que deve ser desprovido de defeitos e que não tenha outra coisa aoferecer, a não ser perfeição.
E se o ‘produto’ adquirido não corresponde às expectativas,basta lançar uma nova busca no mercado por um modelo melhor.
Assim, nenhuma escolhaé dotada de rigor e pode a qualquer momento ser substituída por outra dentro de um mundo de opções, sem que haja maiores danos, numa relação de consumo pautada pelo custo e benefício.
Além da transformação que a modernidade acarretou nos relacionamentos íntimos,
outros fatores são levados em discussão para explicar os conflitos e as taxas de
rompimentos dos relacionamentos contemporâneos.
Um desses fatores é a consideração que homens e mulheres desenvolvem maneiras diferentes de expressar seus sentimentos em atitude ao outro. Goleman faz menção a isso, ao falar da diferença da educação entre meninos e meninas, nos quais uma cultura patriarcal leva os pais a ensinarem maneiras distintas aos filhos de como lidar com suas emoções.
Será que conseguiríamos imaginar umpai dizendo ao seu filho para ser sensível e delicado, e demonstrar seus sentimentos?
Um estudo realizado com matérias de revistas masculinas e femininas procurou
identificar a influência da mídia sobre esses dois públicos.
Os autores concluíram que o foco diferencial dessas revistas para cada gênero só faz reforçarvelhos preconceitos e estereótipos em respeito a atitudes de homens e mulheres numarelação, bem como produzir a idéia de que existe um roteiro de sucesso para tais relacionamentos.
Ademais, podemos conferir que a transformação da modernidade instaurou
profundas mudanças na visão dos relacionamentos amorosos.
A facilidade do rompimento conjugal, a liberdade sexual, a mudança de papéis na sociedade tanto de homens e mulheres e toda uma influência e potência dos avanços tecnológicos (televisão, Internet etc.)tiveram repercussão nesse processo.
Romperam-se numerosas barreiras de tempo e espaço; criaram-se idéias de felicidade e praticidade. Contudo, se esqueceu em meio a toda essa inovação,que as pessoas vivem em um mundo real, e este inclui uma gama de dificuldades e requer habilidades, esforços e disposição para lidar com ele.
Assim, de um lado temos a rapidez de um mundo volátil, inconstante e dinâmico; de
outro o processo longo e trabalhoso da construção de um relacionamento. Diferentes ladosde uma mesma realidade que se aproximam quanto à incerteza que ambos transmitem.
O amor, que aqui foi admitido como a força capaz de unir as pessoas, tem de competir com a rotatividade do mundo contemporâneo.
E nisso, muitas das habilidades essenciais, dentre as quais destaca-se a empatia, ou deixam de ser devidamente estimuladas ou são alocadas em segundo plano, já que ouvir, compreender e procurar entender os sentimentos da pessoa amada são tarefas árduas que requerem disposição, entrega e envolvimento.
A possibilidade de trocar de parceiro a qualquer momento, não foi capaz de diluir a
insegurança da aposta em um relacionamento estável; o incerto passou a ser endereçado à instabilidade dos relacionamentos modernos.
A solução deste impasse talvez se encontre na simplicidade de um olho no olho, na sinceridade de uma palavra amável, no calor real dasrelações humanas.
Algo de antiquado? Talvez sim, mas usando as palavras de Carlos Drummond de Andrade:
“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da
vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que
nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidadedos laços humanos.
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Escuta empatica para casais
O aumento paulatino do número de divórcios, tanto no Brasil quanto no mundo, revela dados preocupantes, com um índice de 60% nos EUA, de 40% na Inglaterra e de 25% no Brasil (Vila, 2002).
Problemas de relacionamento entre casais e de insatisfação no casamento têm sido apontados como um dos maiores estressores da vida, levando a transtornos psiquiátricos e enfermidades físicas .
O estresse no relacionamento conjugal pode levar à violência entre os parceiros, cujas consequências mais extremas são o homicídio ou o suicídio . Além disso, perturbações conjugais também trazem consequências negativas para os filhos e familiares
Os custos potenciais da crise conjugal e do divórcio têm feito com que esse tema ocupe um papel central na literatura psicológica sobre casais, motivando a busca de intervenções para tratar o conflito entre os cônjuges (Fincham & Horneffer, 1996).
No campo da pesquisa, procura-se entender que fatores podem contribuir para um casamento feliz, uma vez que a satisfação conjugal fortalece o sistema imunológico do indivíduo, aumentando o seu tempo de vida
Todas essas constatações explicam por que a satisfação conjugal tem sido amplamente estudada , sendo esta compreendida como a satisfação do indivíduo com o relacionamento no geral e em seus aspectos específicos .
Em uma revisão de estudos, Norgren, Souza, Kaslow, Hammerschmidt e Sharlin (2004) encontraram que a satisfação com o casamento se relaciona a sentimentos de bem-estar, contentamento, companheirismo, afeição e segurança. Tais fatores promovem intimidade no relacionamento e decorrem da congruência entre as expectativas e aspirações dos cônjuges e a realidade vivenciada.
Outros autores, como Arias e House e Dela Coleta , reconhecem que a satisfação conjugal é um fenômeno complexo, além de sofrer a influência de diversas variáveis, tais como: características de personalidade, valores, atitudes e necessidades, sexo, momento do ciclo da vida familiar, presença de filhos, nível de escolaridade, nível socioeconômico, nível cultural, trabalho remunerado e experiência sexual anterior ao casamento. Entretanto, a capacidade para se comunicar parece constituir a base dessas variáveis.
Parker encontrou que os casamentos satisfeitos de longa data dependem de algumas habilidades de interação tais como: desenvolver capacidade para lidar com conflitos; consultar o parceiro na tomada de decisões; manter uma boa comunicação; cultivar valores tais como confiança, respeito, compreensão e equidade; desenvolver a intimidade sexual e psicológica.
Em estudo realizado por Leichty, Willinhganz e Hart (2002, citado em Falcone & Ramos, 2005), verificou-se que indivíduos que relataram maiores níveis de satisfação conjugal eram mais habilidosos socialmente e comunicavam-se mais adequadamente.
Tais resultados são confirmados por diversos estudos que relacionam a capacidade de escuta e de resolução de conflitos ao aumento da satisfação conjugal e à redução do índice de divórcio.
Terapeutas de base cognitivo-comportamental propõem que o desenvolvimento de habilidades sociais entre os casais em crise contribui significativamente para a maior eficácia da comunicação e da resolução de problemas conjugais .
A literatura sobre habilidades sociais vem se desenvolvendo a partir de constatações de sua influência na qualidade de vida e na saúde Entretanto, não existe um consenso sobre a sua definição. Para Caballo , o comportamento socialmente habilidoso corresponde ao:
Conjunto de comportamentos emitidos por um indivíduo em um contexto interpessoal que expressa sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou direitos deste indivíduo, de um modo adequado à situação, respeitando estes comportamentos nos outros e que geralmente resolve os problemas imediatos da situação, minimizando a probabilidade de problemas futuros.
A definição de Caballo refere-se ao comportamento assertivo, o qual é considerado pelo autor como sinônimo de habilidades sociais . O termo assertividade envolve "defender os direitos pessoais e expressar pensamentos, sentimentos e crenças de forma honesta, direta e apropriada, sem violar os direitos da outra pessoa" .
Entretanto, alguns autores afirmam que as habilidades sociais compreendem um repertório mais amplo de respostas, no qual se inclui o comportamento assertivo.
As habilidades sociais são consideradas de forma mais abrangente por Del Prette e Del Prette, ao conceituá-las como diferentes classes de comportamentos sociais que podem ser utilizados pelo indivíduo para lidar de maneira adequada com as demandas das situações interpessoais.
Para os autores, o conjunto das habilidades necessárias para o bom relacionamento social inclui diferentes classes e subclasses, tais como habilidades de comunicação, assertivas, empáticas, de civilidade, de expressividade emocional, de trabalho etc.
Para Falcone e Ramos , o conceito de comportamento socialmente competente deve incluir a capacidade de obter satisfação pessoal, por meio da expressão de sentimentos, da defesa dos próprios direitos (assertividade) e, ao mesmo tempo, da motivação genuína para compreender e atender às necessidades da outra pessoa (empatia).
Além disso, componentes cognitivos, tais como a atenção, percepção, memória e processamento da informação estão também envolvidos no repertório apropriado de desempenho social. A partir desses componentes, o indivíduo pode saber quando e como se comportar adequadamente .
A empatia "caracteriza-se pela habilidade em compreender, de forma acurada, os sentimentos e a perspectiva da outra pessoa, bem como de transmitir entendimento de tal maneira que esta se sinta verdadeiramente compreendida e acolhida"
O comportamento empático inclui:
(a) um componente cognitivo, caracterizado por uma capacidade de compreender acuradamente a perspectiva e os sentimentos dos outros, referido como tomada de perspectiva;
(b) um componente afetivo, caracterizado por sentimentos de compaixão/preocupação com a outra pessoa; e
(c) um componente comportamental, entendido como manifestações verbais e não verbais de compreensão dos estados internos da outra pessoa (Falcone, 2000).
No contexto das interações sociais, a empatia é apreciada pelo interlocutor, que se sente valorizado, aceito, reconhecido e entendido . Além disso, a empatia promove maior entendimento na interação e, em situações de conflito, reduz os atritos e a probabilidade de rompimento.
A empatia possui, ainda, o poder de reduzir a raiva da outra pessoa, tornando-a mais disponível para ouvir, facilitando o diálogo de entendimento
Entretanto, comportar-se de forma empática na maior parte do tempo, abrindo mão das próprias necessidades, pode levar à insatisfação e frustração. Assim, parece que a promoção de interações agradáveis e de satisfação pessoal consiste na integração das habilidades empáticas e assertivas
Os vários estudos empíricos e revisões teóricas atestando a importância das habilidades sociais na satisfação conjugal levam às seguintes questões:
(a) o indivíduo que percebe o seu cônjuge como capaz de ouvir e compreender (empatia), assim como de expressar sentimentos e desejos adequadamente (assertividade), experimenta mais satisfações no casamento do que aquele que não tem essa percepção?;
(b) as habilidades empáticas do cônjuge promovem mais satisfação em seu parceiro do que as habilidades assertivas? Tais questões motivaram a realização deste estudo que teve como objetivo avaliar o quanto a percepção das habilidades sociais do cônjuge pode influenciar a satisfação de um indivíduo com seu relacionamento conjugal.
Método
Participantes
Foram avaliados os níveis de habilidades sociais e de satisfação conjugal de 100 participantes (50 casais). Definiu-se que os participantes deveriam estar casados há, pelo menos, sete anos e ter escolaridade mínima de Ensino Médio completo. As características sócio-demográficas da composição da amostra estão listadas na Tabela
Instrumentos
A avaliação da satisfação conjugal foi realizada a partir da Escala de Satisfação Conjugal (Dela Coleta, 1989), em que o participante avalia sua própria satisfação com o casamento. Os inventários que medem habilidades sociais - Questionário de Empatia Conjugal e Inventário de Habilidades Sociais Conjugais (Villa, 2002) - foram aplicados de forma a que as perguntas se relacionassem ao comportamento do cônjuge.
Para isso, o Inventário de Habilidades Sociais Conjugais precisou ser gramaticalmente adaptado pelos pesquisadores de modo a que as respostas refletissem as habilidades do cônjuge, mantendo-se a estrutura e o conteúdo dos itens.
Para o Questionário de Empatia Conjugal e para a Escala de Satisfação Conjugal existem duas versões, masculina e feminina, nas quais o gênero dos itens se altera, permanecendo, contudo, o mesmo conteúdo. Tal divisão em duas versões foi mantida neste estudo.
Escala de Satisfação Conjugal - ESC (Dela Coleta, 1989). Trata-se de uma escala de auto-informe, desenvolvida originalmente em língua espanhola, traduzida e validada para o português por Dela Coleta, em 1989. A escala contém 24 itens, cada um com três opções de resposta. Quanto maior a pontuação, maior a satisfação do participante com a relação conjugal.
A escala é composta por três subescalas que medem os seguintes aspectos da relação conjugal: interação conjugal, aspectos emocionais e aspectos estruturais. Interação conjugal se refere à maneira como um cônjuge se comporta na interação com seu par, englobando aspectos da comunicação do casal e da frequência de comportamentos positivos e negativos na interação.
Os itens que medem os aspectos emocionais dizem respeito à maneira como o companheiro expressa sentimentos e a como se comporta quando experimenta sentimentos negativos, como raiva e preocupação.
O fator aspectos estruturais, por sua vez, é composto de itens que se relacionam com a maneira pela qual o parceiro organiza a própria vida e o impacto que tal organização tem no relacionamento conjugal.
A versão traduzida teve sua estrutura fatorial validada por meio da análise fatorial. A escala alcançou um Alpha bastante alto tanto para a escala total (α=0,91), quanto para suas subescalas: interação conjugal (α=0,86), aspectos emocionais (α=0,81) e aspectos estruturais (α=0,79).
Questionário de Empatia Conjugal - QEC (Oliveira, 2005). Trata-se de um questionário auto-aplicável, composto por 36 itens, contendo elementos cognitivos, afetivos e comportamentais observados nas pesquisas de relações conjugais, que busca avaliar como o respondente percebe o comportamento do companheiro em relação a si próprio.
Cada item tem uma pontuação que varia entre 1 (nunca) e 4 (sempre). Quanto maior a pontuação, maior a empatia conjugal do parceiro. Este questionário teve sua consistência interna verificada e sua estrutura unifatorial validada pelo método da análise fatorial, obtendo α=0,95 para a escala total.
Inventário de Habilidades Sociais Conjugais - IHSC (Villa, 2002). É baseado no IHS-Del Prette (Del Prette & Del Prette, 2001). O IHSC é semelhante ao IHS-Del Prette, com algumas formulações para torná-lo mais específico às situações próprias do relacionamento conjugal, resultando em um instrumento com 32 itens.
A análise da estrutura fatorial do IHSC foi feita pelo método Alpha, com rotação Varimax, resultando em cinco fatores (comunicação assertiva, expressão de sentimento positivo/agrado, expressão de desacordo/desagrado, desinibição/espontaneidade e controle da agressividade), O coeficiente Alpha, que determina a consistência interna dos fatores variou de 0,85 a 0,42.
Por meio do Alpha de Cronbach total (0,81), constatou-se que o IHSC possui uma boa consistência interna, no que concerne à escala total.
Procedimento
A pesquisa obteve aprovação no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Parecer 028/2006). O estudo foi realizado em uma clínica médica, Clínica de Medicina do Exercício, situada em Copacabana, Rio de Janeiro.
Foram entregues, a cada participante, um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, os três instrumentos de pesquisa e uma folha contendo perguntas para a caracterização da amostra (idade, sexo, tempo de casamento, número de filhos, número de casamentos e grau de instrução).
Não houve tempo-limite para a resposta aos questionários e foi permitido que os participantes levassem os inventários para casa, devolvendo após alguns dias. Os casais foram instruídos a responder às questões individualmente e não houve nenhum tipo de devolução dos resultados aos participantes.
Análise de dados
Foram realizadas análises estatísticas descritivas com o objetivo de caracterizar o grupo estudado, bem como análises estatísticas sobre as relações entre as variáveis pesquisadas. O software utilizado foi o SPSS (versão 11.0).
Optou-se por reavaliar a estrutura fatorial de dois instrumentos utilizados, o IHSC e o QEC, a partir dos dados obtidos nesta amostra, a fim de verificar a estrutura unifatorial do QEC e de obter, no IHSC, uma estrutura fatorial que apresentasse maior validade em relação à amostra deste estudo. O procedimento utilizado foi o de análise fatorial por meio do método dos componentes principais.
Foram inicialmente calculadas as médias obtidas pelos participantes em cada fator, de maneira que, quanto maior o resultado, maior o grau da característica mensurada pelo fator. Em seguida, foram calculados as médias, os desvios-padrão e os coeficientes de correlação de Pearson de cada par de fatores.
Posteriormente, foram realizadas análises de regressão linear múltipla, adotando-se as variáveis sócio-demográficas (idade, sexo, escolaridade, número de casamentos, número de filhos e tempo de casamento) e as dimensões do QEC e do IHSC como preditoras (variáveis independentes) e as três modalidades de satisfação conjugal (interação conjugal, aspectos emocionais e aspectos estruturais) como variáveis critério (dependentes).
No método de regressão linear múltipla, cada bloco de variáveis independentes é introduzido na equação em uma ordem predeterminada pelo pesquisador. Nesse sentido, para o controle de seus efeitos na satisfação conjugal, as variáveis sócio-demográficas foram incluídas no primeiro bloco, enquanto no segundo bloco foram adicionadas as dimensões do IHSC e do QEC, verificando-se a contribuição da adição de cada bloco e variáveis no modelo pelo incremento do R2. Tais procedimentos foram realizados separadamente para cada uma das variáveis critério.
Resultados
Na análise fatorial do QEC, de acordo com os dados da amostra, verificou-se que a estrutura mais apropriada seria uma estrutura unifatorial, englobando itens que medem características cognitivo-comportamentais da empatia e descartando outros que não se encaixavam estatisticamente em nenhum fator, ficando o questionário com 24 itens, todos com cargas fatoriais acima de 0,45. Assim, o Alpha obtido para esta estrutura foi de 0,94.
A nova estrutura fatorial encontrada para o IHSC consistiu em três fatores, denominados neste estudo: (1) Tolerância e escuta empática; (2) Expressão de sentimentos; e (3) Defesa dos próprios direitos. Os coeficiente Alpha dos fatores obtidos foram, respectivamente: 0,81, 0,71 e 0,90. Alguns itens foram excluídos por não se encaixarem estatisticamente na estrutura fatorial, ficando o instrumento com 25 itens.
A estrutura fatorial original da ESC foi mantida. Entretanto, foram calculados os coeficientes Alpha dos fatores para a presente amostra. O fator 1, interação conjugal, obteve um Alpha igual a 0,90; o fator 2, aspectos emocionais, atingiu um Alpha de 0,87; e o fator 3, aspectos estruturais, alcançou um Alpha igual a 0,84.
Foram calculados ainda as médias e os desvios-padrão das respostas dadas pelos participantes aos itens de cada uma das escalas. Nos fatores da ESC, as respostas poderiam variar entre 1 e 3; no QEC, entre 1 e 4; e, nas escalas do IHSC, entre 1 e 5. Na Tabela 2 estão as médias e desvios-padrão para cada escala.
Além disso, as médias das respostas dadas pelos participantes a cada uma das escalas foram comparadas quanto ao sexo. Nessa análise, foi encontrada uma diferença significativa entre os sexos apenas nas respostas ao QEC, com os homens tendendo a avaliar suas parceiras como mais empáticas do que estas os avaliaram (Tabela 3).
Posteriormente, foram calculadas também as correlações de Pearson entre os fatores das medidas de habilidades sociais e os fatores da ESC, como mostra a Tabela 4. A partir desse cálculo, observa-se que o QEC apresentou as maiores correlações com as escalas que mediam satisfação conjugal.
A seguir, foi realizada a análise de regressão múltipla para cada um dos fatores da ESC. A análise foi feita em dois blocos, sendo o primeiro bloco constituído das variáveis sócio-demográficas da amostra (sexo, idade, número de filhos, número de casamentos e escolaridade) e o segundo bloco, dessas variáveis acrescidas das subescalas que mediam habilidades sociais (QEC, Tolerância e escuta empática, Expressão de sentimentos e Defesa dos próprios direitos). Abaixo, encontram-se os resultados para cada fator da satisfação conjugal.
a) Interação conjugal. As variáveis sócio-demográficas (primeiro bloco) explicaram 13% da variância (F(5,91)=2,81; p<0,021) e apenas o número de filhos afetou significativa e negativamente a satisfação conjugal (β=-0,31; t=-2,73; p<0,008). A entrada das medidas de habilidades sociais (segundo bloco) na equação se mostrou capaz de explicar 62% da variância (F(4,87)=55,51; p<0,000), indicando que as habilidades sociais influenciam significativamente a interação conjugal.
Nesse modelo, a medida que mais contribuiu para a explicação da interação conjugal foi a empatia (QEC), que se correlacionou positiva e significativamente com esse fator da satisfação conjugal (β=0,64, t=6,52; p<0,00), seguida pelo número de filhos (β=-0,18; t=-2,74; p<0,007), que se correlacionou negativa e significativamente com a interação conjugal, e pela expressão de sentimentos (β=0,148; t=2,47; p<0,015), que também apresentou uma correlação positiva significativa com essa variável.
Tais dados indicam que quanto maior o nível de empatia percebida no cônjuge, melhor será a interação conjugal. Por outro lado, a qualidade da interação conjugal decai com o aumento do número de filhos. Finalmente, níveis mais elevados de expressão de sentimentos do cônjuge, percebidos pelo seu par, também se relacionam com mais qualidade da interação conjugal, porém, em menor grau do que a empatia conjugal.
b) Aspectos emocionais. As variáveis sócio-demográficas, que formavam o primeiro bloco, foram responsáveis pela explicação de 2% da variância nesse modelo (F(5,91)=0,63; p<0,674), enquanto a adição das medidas de habilidades sociais (segundo bloco) no cálculo explicou 69% dessa variância (F(4,87)=18,34; p<0,000). Isso significa que somente as variáveis sócio-demográficas não podem explicar de maneira significativa a variação dos aspectos emocionais da satisfação conjugal e que as medidas de habilidades sociais, por outro lado, influenciam significativamente esse fator.
Nesse bloco, as variáveis que se correlacionaram positiva e significativamente com os aspectos emocionais foram a expressão de sentimentos (β=0,25; t=2,84; p<0,006) e a defesa dos próprios direitos (β=0,22; t=2,12; p<0,037). Em outras palavras, quanto mais um indivíduo percebe o seu cônjuge expressando sentimentos e agindo de modo a defender seus próprios direitos, mais satisfeito estará esse membro do casal com os aspectos emocionais do seu parceiro.
c) Aspectos estruturais. No que se refere aos aspectos estruturais do parceiro que contribuem para a satisfação conjugal, a análise de regressão múltipla apresentou um grau de 7% da variância explicada somente pelas variáveis sócio-demográficas (primeiro bloco) (F(5,91)=1,39; p<0,236), enquanto o segundo bloco (adicionando as medidas de habilidades sociais) foi responsável por 47% da variância encontrada (F(4,87)=22,20; p<0,000). Nesse modelo, apenas a empatia (QEC) correlacionou-se significativa e positivamente com a variável critério (β=0,65; t=4,83; p<0,000). Assim, somente o grau de empatia percebida no cônjuge influenciou diretamente a satisfação com os aspectos estruturais do parceiro.
Discussão
O presente estudo procurou responder a algumas questões a respeito do impacto das habilidades sociais percebidas no cônjuge na satisfação conjugal de seu parceiro. Verificou-se, a partir dos dados obtidos, que a empatia se relaciona direta e significativamente com todos os aspectos da satisfação conjugal. Assim, quanto maior o grau de empatia percebido no cônjuge, melhor a interação conjugal e maiores os níveis de satisfação alcançados com os aspectos emocionais e estruturais do cônjuge.
Tais dados confirmam os estudos que enunciam que a empatia contribui para maior qualidade no casamento, na medida em que promove maior entendimento na interação, diminuindo a possibilidade de rompimento, intensificando o afeto, aliviando a angústia da outra pessoa, bem como aumentando a auto-estima e a aceitação do cônjuge que manifesta empatia (Barrett-Lennard, 1988; 1993; Bissonnette & cols., 1997; Burleson, 1985; Goleman, 1995; Long & Andrews, 1990; Nichols, 1995; Oliveira, 2005).
Assim, sugere-se que a empatia influencia diretamente a interação conjugal, na medida em que, quando um parceiro procura ver os fatos sob a ótica do outro, muitos atritos na interação podem ser evitados e a solução de problemas de interação se torna mais fácil.
Além disso, a satisfação com os aspectos estruturais do cônjuge mostra-se mais elevada, uma vez que o indivíduo, ao adotar a perspectiva do parceiro, consegue organizar sua vida de maneira a levar em consideração as necessidades de seu cônjuge.
Ainda, a adoção de uma postura empática reduz a raiva, tornando o parceiro mais disponível para ouvir, facilitando o diálogo de entendimento (Goleman, 1995; Nichols, 1995), o que provavelmente levará a uma maneira mais adequada de lidar com sentimentos negativos, contribuindo para maior satisfação quanto aos aspectos emocionais do parceiro no relacionamento.
Os dados desta pesquisa sugerem também que um cônjuge capaz de expressar seus sentimentos contribui para maior satisfação de seu par com o relacionamento conjugal. Esse fator influencia a satisfação conjugal em menor grau do que a empatia, mas ainda assim, de maneira significativa.
A literatura indica que, no cotidiano, a expressão assertiva dos desejos, sentimentos e necessidades facilita a solução de problemas interpessoais, aumenta o senso de auto-eficácia e a auto-estima, melhora a qualidade dos relacionamentos e promove a tranquilidade (Falcone, 1999).
Ainda, a partir desses resultados, é possível hipotetizar que compreender como o parceiro se sente, por meio da expressão adequada de sentimentos por parte deste, facilita que o cônjuge emita comportamentos e tenha atitudes que contribuam para a satisfação conjugal.
De acordo com Taganelli (2003), as dificuldades em interpretar o comportamento e os sentimentos do outro levam ao fracasso do relacionamento. Assim, na medida em que um indivíduo se expressa satisfatoriamente, seu cônjuge pode atender suas necessidades de maneira mais acertada e esse cônjuge pode, ainda, sentir-se mais satisfeito quando recebe um feedback sincero sobre suas ações e pode ajustá-las de forma a agradar seu parceiro.
Parece razoável pensar que o sentimento de ser compreendido, acolhido e validado pelo cônjuge empático promove uma sensação de aceitação e valorização, levando à satisfação de um indivíduo com seu casamento. É possível que o próprio indivíduo que empatiza se sinta mais satisfeito ao promover a satisfação conjugal de seu parceiro, pelas razões acima descritas.
Além disso, aquele que consegue expressar adequadamente seus sentimentos, provavelmente também se sentirá mais aliviado e feliz ao provocar bem estar em seu cônjuge. Nesse sentido, é possível concluir que tanto a empatia quanto a expressão de sentimentos do parceiro atuam diretamente na satisfação conjugal de um indivíduo.
O estudo também permite concluir que, em certos contextos, a combinação de expressões assertivas e empáticas gera efeito ainda maior sobre a satisfação com o casamento do que cada uma delas isoladamente.
Tal hipótese confirma as afirmações de Falcone (2003), em que somente a expressão de sentimentos e necessidades não é suficiente para um relacionamento interpessoal satisfatório, sendo necessária também a empatia para maximizar a qualidade dos relacionamentos.
Os resultados do estudo mostraram que o número de filhos estava inversamente relacionado à qualidade da interação conjugal. Apesar de não ter sido avaliado o impacto dessas variáveis diretamente sobre o grau de habilidades sociais de um indivíduo, pode-se hipotetizar que o estresse causado pelo maior número de filhos demande mais esforço e habilidades dos cônjuges.
Esse resultado é coerente com dados de Ellison e Hall (2003), que apontam que múltiplos filhos têm impacto negativo em diversos aspectos da qualidade de vida, incluindo a satisfação conjugal e o estresse emocional dos pais. Em outro estudo, Ellison e colaboradores encontraram que para cada filho adicional a partir do primeiro, as chances de piora na qualidade de vida dos pais e de toda a família mais do que dobram (Ellison & cols., 2005).
Finalmente, não foram observadas diferenças significativas entre os gêneros em relação à satisfação conjugal. Contudo, houve diferença significativa entre os sexos em relação à empatia percebida no cônjuge. Os homens tenderam a avaliar suas parceiras como mais empáticas do que foram avaliados pelas mesmas. Assim, pode-se considerar que, nessa amostra, as mulheres atingiram maiores níveis de empatia do que os homens.
Tal dado confirma o estudo de Graham e Ickes (1997, citado por Falcone, 1999), que afirmam terem as mulheres maiores níveis de empatia. Essa diferença pode se dever, de acordo com Falcone (1999), tanto a uma predisposição biológica moldada pela necessidade evolutiva de decodificar acuradamente os estados emocionais e necessidades dos bebês, quanto a fatores culturais, uma vez que, em nossa sociedade, as mulheres são treinadas a estarem atentas às necessidades dos outros. Por outro lado, no que se refere à expressão de sentimentos, não houve, nessa amostra, diferenças significativas entre os sexos.
Concluindo, o estudo confirma pesquisas anteriores que atestam ser a satisfação conjugal influenciada pelo nível elevado de habilidades sociais dos cônjuges. Espera-se que esses resultados possam contribuir para futuros estudos, visando à melhoria da satisfação conjugal e da qualidade de vida.
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Recebido em 28.02.07
Primeira decisão editorial em 18.05.09
Versão final em 08.06.09
Aceito em 15.06.09
1 Endereço para correspondência: Rua Visconde de Pirajá, 595/1205. Ipanema. Rio de Janeiro, RJ. CEP 22410-003. E-mail: alinesardinhapsi@gmail.com.
Problemas de relacionamento entre casais e de insatisfação no casamento têm sido apontados como um dos maiores estressores da vida, levando a transtornos psiquiátricos e enfermidades físicas .
O estresse no relacionamento conjugal pode levar à violência entre os parceiros, cujas consequências mais extremas são o homicídio ou o suicídio . Além disso, perturbações conjugais também trazem consequências negativas para os filhos e familiares
Os custos potenciais da crise conjugal e do divórcio têm feito com que esse tema ocupe um papel central na literatura psicológica sobre casais, motivando a busca de intervenções para tratar o conflito entre os cônjuges (Fincham & Horneffer, 1996).
No campo da pesquisa, procura-se entender que fatores podem contribuir para um casamento feliz, uma vez que a satisfação conjugal fortalece o sistema imunológico do indivíduo, aumentando o seu tempo de vida
Todas essas constatações explicam por que a satisfação conjugal tem sido amplamente estudada , sendo esta compreendida como a satisfação do indivíduo com o relacionamento no geral e em seus aspectos específicos .
Em uma revisão de estudos, Norgren, Souza, Kaslow, Hammerschmidt e Sharlin (2004) encontraram que a satisfação com o casamento se relaciona a sentimentos de bem-estar, contentamento, companheirismo, afeição e segurança. Tais fatores promovem intimidade no relacionamento e decorrem da congruência entre as expectativas e aspirações dos cônjuges e a realidade vivenciada.
Outros autores, como Arias e House e Dela Coleta , reconhecem que a satisfação conjugal é um fenômeno complexo, além de sofrer a influência de diversas variáveis, tais como: características de personalidade, valores, atitudes e necessidades, sexo, momento do ciclo da vida familiar, presença de filhos, nível de escolaridade, nível socioeconômico, nível cultural, trabalho remunerado e experiência sexual anterior ao casamento. Entretanto, a capacidade para se comunicar parece constituir a base dessas variáveis.
Parker encontrou que os casamentos satisfeitos de longa data dependem de algumas habilidades de interação tais como: desenvolver capacidade para lidar com conflitos; consultar o parceiro na tomada de decisões; manter uma boa comunicação; cultivar valores tais como confiança, respeito, compreensão e equidade; desenvolver a intimidade sexual e psicológica.
Em estudo realizado por Leichty, Willinhganz e Hart (2002, citado em Falcone & Ramos, 2005), verificou-se que indivíduos que relataram maiores níveis de satisfação conjugal eram mais habilidosos socialmente e comunicavam-se mais adequadamente.
Tais resultados são confirmados por diversos estudos que relacionam a capacidade de escuta e de resolução de conflitos ao aumento da satisfação conjugal e à redução do índice de divórcio.
Terapeutas de base cognitivo-comportamental propõem que o desenvolvimento de habilidades sociais entre os casais em crise contribui significativamente para a maior eficácia da comunicação e da resolução de problemas conjugais .
A literatura sobre habilidades sociais vem se desenvolvendo a partir de constatações de sua influência na qualidade de vida e na saúde Entretanto, não existe um consenso sobre a sua definição. Para Caballo , o comportamento socialmente habilidoso corresponde ao:
Conjunto de comportamentos emitidos por um indivíduo em um contexto interpessoal que expressa sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou direitos deste indivíduo, de um modo adequado à situação, respeitando estes comportamentos nos outros e que geralmente resolve os problemas imediatos da situação, minimizando a probabilidade de problemas futuros.
A definição de Caballo refere-se ao comportamento assertivo, o qual é considerado pelo autor como sinônimo de habilidades sociais . O termo assertividade envolve "defender os direitos pessoais e expressar pensamentos, sentimentos e crenças de forma honesta, direta e apropriada, sem violar os direitos da outra pessoa" .
Entretanto, alguns autores afirmam que as habilidades sociais compreendem um repertório mais amplo de respostas, no qual se inclui o comportamento assertivo.
As habilidades sociais são consideradas de forma mais abrangente por Del Prette e Del Prette, ao conceituá-las como diferentes classes de comportamentos sociais que podem ser utilizados pelo indivíduo para lidar de maneira adequada com as demandas das situações interpessoais.
Para os autores, o conjunto das habilidades necessárias para o bom relacionamento social inclui diferentes classes e subclasses, tais como habilidades de comunicação, assertivas, empáticas, de civilidade, de expressividade emocional, de trabalho etc.
Para Falcone e Ramos , o conceito de comportamento socialmente competente deve incluir a capacidade de obter satisfação pessoal, por meio da expressão de sentimentos, da defesa dos próprios direitos (assertividade) e, ao mesmo tempo, da motivação genuína para compreender e atender às necessidades da outra pessoa (empatia).
Além disso, componentes cognitivos, tais como a atenção, percepção, memória e processamento da informação estão também envolvidos no repertório apropriado de desempenho social. A partir desses componentes, o indivíduo pode saber quando e como se comportar adequadamente .
A empatia "caracteriza-se pela habilidade em compreender, de forma acurada, os sentimentos e a perspectiva da outra pessoa, bem como de transmitir entendimento de tal maneira que esta se sinta verdadeiramente compreendida e acolhida"
O comportamento empático inclui:
(a) um componente cognitivo, caracterizado por uma capacidade de compreender acuradamente a perspectiva e os sentimentos dos outros, referido como tomada de perspectiva;
(b) um componente afetivo, caracterizado por sentimentos de compaixão/preocupação com a outra pessoa; e
(c) um componente comportamental, entendido como manifestações verbais e não verbais de compreensão dos estados internos da outra pessoa (Falcone, 2000).
No contexto das interações sociais, a empatia é apreciada pelo interlocutor, que se sente valorizado, aceito, reconhecido e entendido . Além disso, a empatia promove maior entendimento na interação e, em situações de conflito, reduz os atritos e a probabilidade de rompimento.
A empatia possui, ainda, o poder de reduzir a raiva da outra pessoa, tornando-a mais disponível para ouvir, facilitando o diálogo de entendimento
Entretanto, comportar-se de forma empática na maior parte do tempo, abrindo mão das próprias necessidades, pode levar à insatisfação e frustração. Assim, parece que a promoção de interações agradáveis e de satisfação pessoal consiste na integração das habilidades empáticas e assertivas
Os vários estudos empíricos e revisões teóricas atestando a importância das habilidades sociais na satisfação conjugal levam às seguintes questões:
(a) o indivíduo que percebe o seu cônjuge como capaz de ouvir e compreender (empatia), assim como de expressar sentimentos e desejos adequadamente (assertividade), experimenta mais satisfações no casamento do que aquele que não tem essa percepção?;
(b) as habilidades empáticas do cônjuge promovem mais satisfação em seu parceiro do que as habilidades assertivas? Tais questões motivaram a realização deste estudo que teve como objetivo avaliar o quanto a percepção das habilidades sociais do cônjuge pode influenciar a satisfação de um indivíduo com seu relacionamento conjugal.
Método
Participantes
Foram avaliados os níveis de habilidades sociais e de satisfação conjugal de 100 participantes (50 casais). Definiu-se que os participantes deveriam estar casados há, pelo menos, sete anos e ter escolaridade mínima de Ensino Médio completo. As características sócio-demográficas da composição da amostra estão listadas na Tabela
Instrumentos
A avaliação da satisfação conjugal foi realizada a partir da Escala de Satisfação Conjugal (Dela Coleta, 1989), em que o participante avalia sua própria satisfação com o casamento. Os inventários que medem habilidades sociais - Questionário de Empatia Conjugal e Inventário de Habilidades Sociais Conjugais (Villa, 2002) - foram aplicados de forma a que as perguntas se relacionassem ao comportamento do cônjuge.
Para isso, o Inventário de Habilidades Sociais Conjugais precisou ser gramaticalmente adaptado pelos pesquisadores de modo a que as respostas refletissem as habilidades do cônjuge, mantendo-se a estrutura e o conteúdo dos itens.
Para o Questionário de Empatia Conjugal e para a Escala de Satisfação Conjugal existem duas versões, masculina e feminina, nas quais o gênero dos itens se altera, permanecendo, contudo, o mesmo conteúdo. Tal divisão em duas versões foi mantida neste estudo.
Escala de Satisfação Conjugal - ESC (Dela Coleta, 1989). Trata-se de uma escala de auto-informe, desenvolvida originalmente em língua espanhola, traduzida e validada para o português por Dela Coleta, em 1989. A escala contém 24 itens, cada um com três opções de resposta. Quanto maior a pontuação, maior a satisfação do participante com a relação conjugal.
A escala é composta por três subescalas que medem os seguintes aspectos da relação conjugal: interação conjugal, aspectos emocionais e aspectos estruturais. Interação conjugal se refere à maneira como um cônjuge se comporta na interação com seu par, englobando aspectos da comunicação do casal e da frequência de comportamentos positivos e negativos na interação.
Os itens que medem os aspectos emocionais dizem respeito à maneira como o companheiro expressa sentimentos e a como se comporta quando experimenta sentimentos negativos, como raiva e preocupação.
O fator aspectos estruturais, por sua vez, é composto de itens que se relacionam com a maneira pela qual o parceiro organiza a própria vida e o impacto que tal organização tem no relacionamento conjugal.
A versão traduzida teve sua estrutura fatorial validada por meio da análise fatorial. A escala alcançou um Alpha bastante alto tanto para a escala total (α=0,91), quanto para suas subescalas: interação conjugal (α=0,86), aspectos emocionais (α=0,81) e aspectos estruturais (α=0,79).
Questionário de Empatia Conjugal - QEC (Oliveira, 2005). Trata-se de um questionário auto-aplicável, composto por 36 itens, contendo elementos cognitivos, afetivos e comportamentais observados nas pesquisas de relações conjugais, que busca avaliar como o respondente percebe o comportamento do companheiro em relação a si próprio.
Cada item tem uma pontuação que varia entre 1 (nunca) e 4 (sempre). Quanto maior a pontuação, maior a empatia conjugal do parceiro. Este questionário teve sua consistência interna verificada e sua estrutura unifatorial validada pelo método da análise fatorial, obtendo α=0,95 para a escala total.
Inventário de Habilidades Sociais Conjugais - IHSC (Villa, 2002). É baseado no IHS-Del Prette (Del Prette & Del Prette, 2001). O IHSC é semelhante ao IHS-Del Prette, com algumas formulações para torná-lo mais específico às situações próprias do relacionamento conjugal, resultando em um instrumento com 32 itens.
A análise da estrutura fatorial do IHSC foi feita pelo método Alpha, com rotação Varimax, resultando em cinco fatores (comunicação assertiva, expressão de sentimento positivo/agrado, expressão de desacordo/desagrado, desinibição/espontaneidade e controle da agressividade), O coeficiente Alpha, que determina a consistência interna dos fatores variou de 0,85 a 0,42.
Por meio do Alpha de Cronbach total (0,81), constatou-se que o IHSC possui uma boa consistência interna, no que concerne à escala total.
Procedimento
A pesquisa obteve aprovação no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Parecer 028/2006). O estudo foi realizado em uma clínica médica, Clínica de Medicina do Exercício, situada em Copacabana, Rio de Janeiro.
Foram entregues, a cada participante, um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, os três instrumentos de pesquisa e uma folha contendo perguntas para a caracterização da amostra (idade, sexo, tempo de casamento, número de filhos, número de casamentos e grau de instrução).
Não houve tempo-limite para a resposta aos questionários e foi permitido que os participantes levassem os inventários para casa, devolvendo após alguns dias. Os casais foram instruídos a responder às questões individualmente e não houve nenhum tipo de devolução dos resultados aos participantes.
Análise de dados
Foram realizadas análises estatísticas descritivas com o objetivo de caracterizar o grupo estudado, bem como análises estatísticas sobre as relações entre as variáveis pesquisadas. O software utilizado foi o SPSS (versão 11.0).
Optou-se por reavaliar a estrutura fatorial de dois instrumentos utilizados, o IHSC e o QEC, a partir dos dados obtidos nesta amostra, a fim de verificar a estrutura unifatorial do QEC e de obter, no IHSC, uma estrutura fatorial que apresentasse maior validade em relação à amostra deste estudo. O procedimento utilizado foi o de análise fatorial por meio do método dos componentes principais.
Foram inicialmente calculadas as médias obtidas pelos participantes em cada fator, de maneira que, quanto maior o resultado, maior o grau da característica mensurada pelo fator. Em seguida, foram calculados as médias, os desvios-padrão e os coeficientes de correlação de Pearson de cada par de fatores.
Posteriormente, foram realizadas análises de regressão linear múltipla, adotando-se as variáveis sócio-demográficas (idade, sexo, escolaridade, número de casamentos, número de filhos e tempo de casamento) e as dimensões do QEC e do IHSC como preditoras (variáveis independentes) e as três modalidades de satisfação conjugal (interação conjugal, aspectos emocionais e aspectos estruturais) como variáveis critério (dependentes).
No método de regressão linear múltipla, cada bloco de variáveis independentes é introduzido na equação em uma ordem predeterminada pelo pesquisador. Nesse sentido, para o controle de seus efeitos na satisfação conjugal, as variáveis sócio-demográficas foram incluídas no primeiro bloco, enquanto no segundo bloco foram adicionadas as dimensões do IHSC e do QEC, verificando-se a contribuição da adição de cada bloco e variáveis no modelo pelo incremento do R2. Tais procedimentos foram realizados separadamente para cada uma das variáveis critério.
Resultados
Na análise fatorial do QEC, de acordo com os dados da amostra, verificou-se que a estrutura mais apropriada seria uma estrutura unifatorial, englobando itens que medem características cognitivo-comportamentais da empatia e descartando outros que não se encaixavam estatisticamente em nenhum fator, ficando o questionário com 24 itens, todos com cargas fatoriais acima de 0,45. Assim, o Alpha obtido para esta estrutura foi de 0,94.
A nova estrutura fatorial encontrada para o IHSC consistiu em três fatores, denominados neste estudo: (1) Tolerância e escuta empática; (2) Expressão de sentimentos; e (3) Defesa dos próprios direitos. Os coeficiente Alpha dos fatores obtidos foram, respectivamente: 0,81, 0,71 e 0,90. Alguns itens foram excluídos por não se encaixarem estatisticamente na estrutura fatorial, ficando o instrumento com 25 itens.
A estrutura fatorial original da ESC foi mantida. Entretanto, foram calculados os coeficientes Alpha dos fatores para a presente amostra. O fator 1, interação conjugal, obteve um Alpha igual a 0,90; o fator 2, aspectos emocionais, atingiu um Alpha de 0,87; e o fator 3, aspectos estruturais, alcançou um Alpha igual a 0,84.
Foram calculados ainda as médias e os desvios-padrão das respostas dadas pelos participantes aos itens de cada uma das escalas. Nos fatores da ESC, as respostas poderiam variar entre 1 e 3; no QEC, entre 1 e 4; e, nas escalas do IHSC, entre 1 e 5. Na Tabela 2 estão as médias e desvios-padrão para cada escala.
Além disso, as médias das respostas dadas pelos participantes a cada uma das escalas foram comparadas quanto ao sexo. Nessa análise, foi encontrada uma diferença significativa entre os sexos apenas nas respostas ao QEC, com os homens tendendo a avaliar suas parceiras como mais empáticas do que estas os avaliaram (Tabela 3).
Posteriormente, foram calculadas também as correlações de Pearson entre os fatores das medidas de habilidades sociais e os fatores da ESC, como mostra a Tabela 4. A partir desse cálculo, observa-se que o QEC apresentou as maiores correlações com as escalas que mediam satisfação conjugal.
A seguir, foi realizada a análise de regressão múltipla para cada um dos fatores da ESC. A análise foi feita em dois blocos, sendo o primeiro bloco constituído das variáveis sócio-demográficas da amostra (sexo, idade, número de filhos, número de casamentos e escolaridade) e o segundo bloco, dessas variáveis acrescidas das subescalas que mediam habilidades sociais (QEC, Tolerância e escuta empática, Expressão de sentimentos e Defesa dos próprios direitos). Abaixo, encontram-se os resultados para cada fator da satisfação conjugal.
a) Interação conjugal. As variáveis sócio-demográficas (primeiro bloco) explicaram 13% da variância (F(5,91)=2,81; p<0,021) e apenas o número de filhos afetou significativa e negativamente a satisfação conjugal (β=-0,31; t=-2,73; p<0,008). A entrada das medidas de habilidades sociais (segundo bloco) na equação se mostrou capaz de explicar 62% da variância (F(4,87)=55,51; p<0,000), indicando que as habilidades sociais influenciam significativamente a interação conjugal.
Nesse modelo, a medida que mais contribuiu para a explicação da interação conjugal foi a empatia (QEC), que se correlacionou positiva e significativamente com esse fator da satisfação conjugal (β=0,64, t=6,52; p<0,00), seguida pelo número de filhos (β=-0,18; t=-2,74; p<0,007), que se correlacionou negativa e significativamente com a interação conjugal, e pela expressão de sentimentos (β=0,148; t=2,47; p<0,015), que também apresentou uma correlação positiva significativa com essa variável.
Tais dados indicam que quanto maior o nível de empatia percebida no cônjuge, melhor será a interação conjugal. Por outro lado, a qualidade da interação conjugal decai com o aumento do número de filhos. Finalmente, níveis mais elevados de expressão de sentimentos do cônjuge, percebidos pelo seu par, também se relacionam com mais qualidade da interação conjugal, porém, em menor grau do que a empatia conjugal.
b) Aspectos emocionais. As variáveis sócio-demográficas, que formavam o primeiro bloco, foram responsáveis pela explicação de 2% da variância nesse modelo (F(5,91)=0,63; p<0,674), enquanto a adição das medidas de habilidades sociais (segundo bloco) no cálculo explicou 69% dessa variância (F(4,87)=18,34; p<0,000). Isso significa que somente as variáveis sócio-demográficas não podem explicar de maneira significativa a variação dos aspectos emocionais da satisfação conjugal e que as medidas de habilidades sociais, por outro lado, influenciam significativamente esse fator.
Nesse bloco, as variáveis que se correlacionaram positiva e significativamente com os aspectos emocionais foram a expressão de sentimentos (β=0,25; t=2,84; p<0,006) e a defesa dos próprios direitos (β=0,22; t=2,12; p<0,037). Em outras palavras, quanto mais um indivíduo percebe o seu cônjuge expressando sentimentos e agindo de modo a defender seus próprios direitos, mais satisfeito estará esse membro do casal com os aspectos emocionais do seu parceiro.
c) Aspectos estruturais. No que se refere aos aspectos estruturais do parceiro que contribuem para a satisfação conjugal, a análise de regressão múltipla apresentou um grau de 7% da variância explicada somente pelas variáveis sócio-demográficas (primeiro bloco) (F(5,91)=1,39; p<0,236), enquanto o segundo bloco (adicionando as medidas de habilidades sociais) foi responsável por 47% da variância encontrada (F(4,87)=22,20; p<0,000). Nesse modelo, apenas a empatia (QEC) correlacionou-se significativa e positivamente com a variável critério (β=0,65; t=4,83; p<0,000). Assim, somente o grau de empatia percebida no cônjuge influenciou diretamente a satisfação com os aspectos estruturais do parceiro.
Discussão
O presente estudo procurou responder a algumas questões a respeito do impacto das habilidades sociais percebidas no cônjuge na satisfação conjugal de seu parceiro. Verificou-se, a partir dos dados obtidos, que a empatia se relaciona direta e significativamente com todos os aspectos da satisfação conjugal. Assim, quanto maior o grau de empatia percebido no cônjuge, melhor a interação conjugal e maiores os níveis de satisfação alcançados com os aspectos emocionais e estruturais do cônjuge.
Tais dados confirmam os estudos que enunciam que a empatia contribui para maior qualidade no casamento, na medida em que promove maior entendimento na interação, diminuindo a possibilidade de rompimento, intensificando o afeto, aliviando a angústia da outra pessoa, bem como aumentando a auto-estima e a aceitação do cônjuge que manifesta empatia (Barrett-Lennard, 1988; 1993; Bissonnette & cols., 1997; Burleson, 1985; Goleman, 1995; Long & Andrews, 1990; Nichols, 1995; Oliveira, 2005).
Assim, sugere-se que a empatia influencia diretamente a interação conjugal, na medida em que, quando um parceiro procura ver os fatos sob a ótica do outro, muitos atritos na interação podem ser evitados e a solução de problemas de interação se torna mais fácil.
Além disso, a satisfação com os aspectos estruturais do cônjuge mostra-se mais elevada, uma vez que o indivíduo, ao adotar a perspectiva do parceiro, consegue organizar sua vida de maneira a levar em consideração as necessidades de seu cônjuge.
Ainda, a adoção de uma postura empática reduz a raiva, tornando o parceiro mais disponível para ouvir, facilitando o diálogo de entendimento (Goleman, 1995; Nichols, 1995), o que provavelmente levará a uma maneira mais adequada de lidar com sentimentos negativos, contribuindo para maior satisfação quanto aos aspectos emocionais do parceiro no relacionamento.
Os dados desta pesquisa sugerem também que um cônjuge capaz de expressar seus sentimentos contribui para maior satisfação de seu par com o relacionamento conjugal. Esse fator influencia a satisfação conjugal em menor grau do que a empatia, mas ainda assim, de maneira significativa.
A literatura indica que, no cotidiano, a expressão assertiva dos desejos, sentimentos e necessidades facilita a solução de problemas interpessoais, aumenta o senso de auto-eficácia e a auto-estima, melhora a qualidade dos relacionamentos e promove a tranquilidade (Falcone, 1999).
Ainda, a partir desses resultados, é possível hipotetizar que compreender como o parceiro se sente, por meio da expressão adequada de sentimentos por parte deste, facilita que o cônjuge emita comportamentos e tenha atitudes que contribuam para a satisfação conjugal.
De acordo com Taganelli (2003), as dificuldades em interpretar o comportamento e os sentimentos do outro levam ao fracasso do relacionamento. Assim, na medida em que um indivíduo se expressa satisfatoriamente, seu cônjuge pode atender suas necessidades de maneira mais acertada e esse cônjuge pode, ainda, sentir-se mais satisfeito quando recebe um feedback sincero sobre suas ações e pode ajustá-las de forma a agradar seu parceiro.
Parece razoável pensar que o sentimento de ser compreendido, acolhido e validado pelo cônjuge empático promove uma sensação de aceitação e valorização, levando à satisfação de um indivíduo com seu casamento. É possível que o próprio indivíduo que empatiza se sinta mais satisfeito ao promover a satisfação conjugal de seu parceiro, pelas razões acima descritas.
Além disso, aquele que consegue expressar adequadamente seus sentimentos, provavelmente também se sentirá mais aliviado e feliz ao provocar bem estar em seu cônjuge. Nesse sentido, é possível concluir que tanto a empatia quanto a expressão de sentimentos do parceiro atuam diretamente na satisfação conjugal de um indivíduo.
O estudo também permite concluir que, em certos contextos, a combinação de expressões assertivas e empáticas gera efeito ainda maior sobre a satisfação com o casamento do que cada uma delas isoladamente.
Tal hipótese confirma as afirmações de Falcone (2003), em que somente a expressão de sentimentos e necessidades não é suficiente para um relacionamento interpessoal satisfatório, sendo necessária também a empatia para maximizar a qualidade dos relacionamentos.
Os resultados do estudo mostraram que o número de filhos estava inversamente relacionado à qualidade da interação conjugal. Apesar de não ter sido avaliado o impacto dessas variáveis diretamente sobre o grau de habilidades sociais de um indivíduo, pode-se hipotetizar que o estresse causado pelo maior número de filhos demande mais esforço e habilidades dos cônjuges.
Esse resultado é coerente com dados de Ellison e Hall (2003), que apontam que múltiplos filhos têm impacto negativo em diversos aspectos da qualidade de vida, incluindo a satisfação conjugal e o estresse emocional dos pais. Em outro estudo, Ellison e colaboradores encontraram que para cada filho adicional a partir do primeiro, as chances de piora na qualidade de vida dos pais e de toda a família mais do que dobram (Ellison & cols., 2005).
Finalmente, não foram observadas diferenças significativas entre os gêneros em relação à satisfação conjugal. Contudo, houve diferença significativa entre os sexos em relação à empatia percebida no cônjuge. Os homens tenderam a avaliar suas parceiras como mais empáticas do que foram avaliados pelas mesmas. Assim, pode-se considerar que, nessa amostra, as mulheres atingiram maiores níveis de empatia do que os homens.
Tal dado confirma o estudo de Graham e Ickes (1997, citado por Falcone, 1999), que afirmam terem as mulheres maiores níveis de empatia. Essa diferença pode se dever, de acordo com Falcone (1999), tanto a uma predisposição biológica moldada pela necessidade evolutiva de decodificar acuradamente os estados emocionais e necessidades dos bebês, quanto a fatores culturais, uma vez que, em nossa sociedade, as mulheres são treinadas a estarem atentas às necessidades dos outros. Por outro lado, no que se refere à expressão de sentimentos, não houve, nessa amostra, diferenças significativas entre os sexos.
Concluindo, o estudo confirma pesquisas anteriores que atestam ser a satisfação conjugal influenciada pelo nível elevado de habilidades sociais dos cônjuges. Espera-se que esses resultados possam contribuir para futuros estudos, visando à melhoria da satisfação conjugal e da qualidade de vida.
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Recebido em 28.02.07
Primeira decisão editorial em 18.05.09
Versão final em 08.06.09
Aceito em 15.06.09
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