terça-feira, 23 de março de 2010

emaptia nos relacionamentos

A EMPATIA COMO FACILITADORA DOS RELACIONAMENTOS AMOROSOS
E AS INFLUÊNCIAS DA MODERNIDADE


A instabilidade e a volatilidade das relações íntimas somadas às inúmeras transformações observadas nas práticas amorosas refletem a dificuldade de se manter um relacionamento em nossos dias, o que repercute numa ausência de comportamento empático para com o parceiro(a).

Desse modo, o objetivo deste artigo é destacar a importância da empatia como uma habilidade essencial na sustentação de relacionamentos amorosos e discutir as influências da modernidade que repercutiram nos conflitos dessas relações.

A empatia trata-se da capacidade humana de inferir e compartilhar os pensamentos e
os sentimentos das outras pessoas, e vem sendo apontada como uma habilidade essencial
para a qualidade das relações interpessoais, .

É preditiva de ajustamento marital e afeta a satisfação na relação conjugal, através de suas influências sobre comportamentos específicos de mediação .

Com isso, as pessoas que manifestam um comportamento empático são capazes de tornar suas relações mais prazerosas, reduzindo situações de conflito e de rompimento.

A empatia é definida como uma habilidade de comunicação, composta pelos
componentes cognitivo (compreensão dos sentimentos e perspectivas da outra pessoa),
afetivo (sentimentos de compaixão e simpatia pela outra pessoa) e comportamental
(transmissão do entendimento dos sentimentos e perspectivas da outra pessoa).

Vale chamar a atenção para o papel da compreensão empática, que envolve o
‘prestar atenção’ e o ‘ouvir sensivelmente’, e para o papel da comunicação empática, que envolve o ‘verbalizar sensivelmente’.

Quando bem ajustadas, essas funções promovem o desenvolvimento saudável das relações interpessoais, visto que a habilidade em ‘ler’ e valorizar os pensamentos e sentimentos das outras pessoas é o que, provavelmente torna esses indivíduos mais bem sucedidos em suas relações íntimas.


Dentro dessa concepção, é possível creditar à empatia um papel fundamental na
dinâmica das relações entre casais, atuando como um instrumento facilitador da
comunicação e do entendimento dos sentimentos, emoções e pontos de vista do outro.

Para entender melhor o funcionamento dos relacionamentos amorosos, faz-se
necessário compreender (ou pelo menos assumir) o sentido do amor, sentimento pelo qual,as pessoas buscam estar juntas e que constitui a maior razão de união em matrimônio.

Para tanto, podemos buscar as origens das concepções sobre o amor nos mitos, donde encontramos na mitologia greco-romana uma das primeiras formulações do significado do amor através das diferentes descrições do mito de Eros, o deus do amor (Braz, 2005).


Nas diferentes versões que Eros assumiu na mitologia, podemos observar a união
como uma característica constante, como nos aponta uma destas versões: Eros é visto como força de ligação e coesão do universo, trazendo em si o desejo de tudo ligar e unir .

Todavia, o mesmo Eros que tudo une, começa a ser visto sob dois ângulos distintos:
Na mesma versão de Eurípedes, Eros tem duplo caráter, num momento era força perniciosaque provocava a ruína dos homens e, em outro, o poder que levava a virtude e a salvaçãoaos homens.

Assim, fazendo uma analogia com os mitos, também podemos ver nas relações amorosas esse jogo de contraste, em que muitas vezes de um sentimentosaudável e construtivo, o amor passa a destrutivo, ao passo que patológico.

Não existe um consenso acerca da definição do amor romântico.

Dentro da Psicologia Social coexistem várias abordagens sobre as diferentes maneiras de amar, dentre as quais encontra-se a versão de Zick Rubin, pioneiro no estudo do tema, segundo a qual o amor é composto dos seguintes fatores: ‘afeição, preocupação e intimidade’.

Segundo Rubin, há alguns elementos que são comuns a todos os relacionamentos
amorosos, tais como, a ‘compreensão mútua, dar e receber apoio, gostar da companhia da pessoa amada’; bem como elementos distintivos, como no caso do amor romântico, em que muitas vezes o casal é capaz de se comunicar através da simples troca de olhares .

Hatfield (1988) define o amor romântico como “um estado de intenso anseio pela
união com outra pessoa”. Sendo assim, podemos ver mais uma vez o amor como elo que
estabelece os relacionamentos entre pares.

Contudo, sendo o amor um sentimento tão intenso e prazeroso, por que então observa-se tanta dificuldade na sustentação de relaçõesestáveis e duradouras?

O auge de um relacionamento, com todo seu estado de exaltação, não dura para
sempre. O que garantirá a durabilidade de uma relação é o que Hatifield chama de ‘amor de companheirismo’, no qual a ligação entre o casal é mais profunda e afetuosa.

Contudo, odeclínio do amor romântico é inevitável, e assim do fogo ardente da paixão, o amor passa ao calor ameno do afeto.

O mito de Eros e Psique nos traz uma bela visão do amor como algo poderoso e
superador, capaz de enfrentar tudo, e em meio às dificuldades conseguir amadurecer.

Mas,se até mesmo na construção poética dos mitos, o amor admite seu caráter de dificuldade,quiçá nos relacionamentos entre os casais, nos quais a prática cotidiana implica diversosproblemas de uma vida a dois.

Com toda a pressão do dia-a-dia, os conflitos tornam-se inevitáveis. Contudo, saber
ouvir provoca efeitos positivos na interação com o outro; a escuta sensível é capaz até mesmo de diminuir a raiva diante de uma situação difícil e possibilitar o entendimento dasrazões e dos sentimentos daquele que manifesta raiva, tornando possível o rompimento dasituação de conflito .

Desse modo, uma das características fundamentais de um bom relacionamento é a
qualidade da comunicação, e isto inclui tanto a linguagem verbal, como a não-verbal.


Entretanto, como bem sabemos, na prática não é tão fácil conseguir falar de tudo
explicitamente, ficando muito da nossa mensagem subentendida nas entrelinhas do
discurso.

Nesse sentindo, Goleman aponta que raramente as emoções das pessoas são postas em palavras, sendo expressas através de indícios, como pequenos gestos, que irão depender da capacidade de interpretação de canais não-verbais para que haja
compreensão dos sentimentos do outro.

Dentro desse contexto entra a questão da intimidade. A intimidade é uma conquista,
ou melhor, uma construção gradativa que se obtém através do tempo, e é claro, do nível deproximidade do casal. Deste modo, é preciso sim, dispor de tempo em quantidade equalidade no cuidado e atenção com o outro.


Experimentos em Psicologia Social demonstraram que o afeto direcionado à pessoa
amada faz com que ela retribua da mesma maneira, Com isso, demonstrar que se gosta de alguém é um passo para despertar o interesse no outro.

Quando pessoas sentem que atraem alguém, elas tendem a se sentir atraídas também, e passam a retribuir o afeto.


Nisso, pode-se dizer que entrar numa relação com alguém requer envolvimento,
cuidado, atenção e respeito aos sentimentos da outra pessoa. Assim, a empatia está para orelacionamento como o veículo que possibilita que aquilo que é despertado em nós atravésdo amor seja bem dirigido ao outro, de maneira que, numa situação recíproca, um casal seencontre verdadeiramente em ‘relacionamento’.

Nos dias de hoje, podemos facilmente conferir a fragilidade dos relacionamentos
modernos, nos quais se busca justamente evitar os problemas e as dificuldades. Bauman
bem nos aponta, a fluidez dos relacionamentos através da noção de amor líquido, doqual a incerteza e a insegurança são fatores constituintes.

Numa situação ambivalente, as pessoas buscam relações íntimas e ao mesmo tempo
se desvencilham dos laços que tais relações podem trazer.

Com isso, fazem uso de‘estratégias’ para construir e pautar seus relacionamentos:

São manuais de conquista, sitesde relacionamentos, namoros virtuais, enfim, inúmeros artifícios utilizados para a escolhado parceiro ideal, que deve ser desprovido de defeitos e que não tenha outra coisa aoferecer, a não ser perfeição.

E se o ‘produto’ adquirido não corresponde às expectativas,basta lançar uma nova busca no mercado por um modelo melhor.

Assim, nenhuma escolhaé dotada de rigor e pode a qualquer momento ser substituída por outra dentro de um mundo de opções, sem que haja maiores danos, numa relação de consumo pautada pelo custo e benefício.

Além da transformação que a modernidade acarretou nos relacionamentos íntimos,
outros fatores são levados em discussão para explicar os conflitos e as taxas de
rompimentos dos relacionamentos contemporâneos.

Um desses fatores é a consideração que homens e mulheres desenvolvem maneiras diferentes de expressar seus sentimentos em atitude ao outro. Goleman faz menção a isso, ao falar da diferença da educação entre meninos e meninas, nos quais uma cultura patriarcal leva os pais a ensinarem maneiras distintas aos filhos de como lidar com suas emoções.

Será que conseguiríamos imaginar umpai dizendo ao seu filho para ser sensível e delicado, e demonstrar seus sentimentos?

Um estudo realizado com matérias de revistas masculinas e femininas procurou
identificar a influência da mídia sobre esses dois públicos.

Os autores concluíram que o foco diferencial dessas revistas para cada gênero só faz reforçarvelhos preconceitos e estereótipos em respeito a atitudes de homens e mulheres numarelação, bem como produzir a idéia de que existe um roteiro de sucesso para tais relacionamentos.

Ademais, podemos conferir que a transformação da modernidade instaurou
profundas mudanças na visão dos relacionamentos amorosos.

A facilidade do rompimento conjugal, a liberdade sexual, a mudança de papéis na sociedade tanto de homens e mulheres e toda uma influência e potência dos avanços tecnológicos (televisão, Internet etc.)tiveram repercussão nesse processo.

Romperam-se numerosas barreiras de tempo e espaço; criaram-se idéias de felicidade e praticidade. Contudo, se esqueceu em meio a toda essa inovação,que as pessoas vivem em um mundo real, e este inclui uma gama de dificuldades e requer habilidades, esforços e disposição para lidar com ele.


Assim, de um lado temos a rapidez de um mundo volátil, inconstante e dinâmico; de
outro o processo longo e trabalhoso da construção de um relacionamento. Diferentes ladosde uma mesma realidade que se aproximam quanto à incerteza que ambos transmitem.

O amor, que aqui foi admitido como a força capaz de unir as pessoas, tem de competir com a rotatividade do mundo contemporâneo.

E nisso, muitas das habilidades essenciais, dentre as quais destaca-se a empatia, ou deixam de ser devidamente estimuladas ou são alocadas em segundo plano, já que ouvir, compreender e procurar entender os sentimentos da pessoa amada são tarefas árduas que requerem disposição, entrega e envolvimento.

A possibilidade de trocar de parceiro a qualquer momento, não foi capaz de diluir a
insegurança da aposta em um relacionamento estável; o incerto passou a ser endereçado à instabilidade dos relacionamentos modernos.

A solução deste impasse talvez se encontre na simplicidade de um olho no olho, na sinceridade de uma palavra amável, no calor real dasrelações humanas.

Algo de antiquado? Talvez sim, mas usando as palavras de Carlos Drummond de Andrade:

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da
vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que
nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidadedos laços humanos.

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